domingo, 14 de julho de 2019

São Vicente Samaritano



Depois de palmilhar tantos caminhos, teu olhar se fixou para sempre no Senhor. Com ele, aprendeste a inclinar teu coração sobre o irmão ferido e abandonado.

Não cedeste à prepotência de quem se julga superior, muito menos à indiferença de quem finge não ver. Não passaste adiante, justificando tua pressa. Teu prestígio não obscureceu tua verdade, nem tuas conquistas te fizeram menos humano. 

Naquela estrada, o Senhor te encontrou, inquieto, busca de sentido para o teu peregrinar. E, ali, tu encontraste o Senhor, na face machucada do teu próximo, na lágrima do que fora esquecido, na solidão do rejeitado. 

Sem vacilar, entraste no movimento da Misericórdia, fazendo-te próximo dos caídos, dilatando teu coração compassivo, estendendo tuas mãos operosas, recobrindo a indigência com o manto da caridade.

Com delicadeza, criatividade e cuidado, derramaste sobre os feridos o bálsamo da misericórdia. Com firmeza lucidez e vigor, interpelaste os insensíveis e acomodados. 

É que teu olhar já se fixara no pobre, o mesmo olhar que se fixara no Senhor, Ele que considera como feito a si o que se faz ao menor dos seus irmãos.

E, neste movimento, neste encontraste tanta gente: Maria, a Mãe de Misericórdia e do Sorriso; São José, o trabalhador de mãos calejadas; Luísa de Marillac, a irmã dos desamparados.

E bem que poderias ter encontrado tantos outros que trilharam os mesmos rumos no chão da nossa terra: Madre Paulina e Irmã Dulce, Dom Helder e Padre Alfredinho, Irmã Lindalva e Dom Luciano... 

Faze ecoar em nossos ouvidos, Ó São Vicente Samaritano, o apelo de nosso Irmão Misericordioso: "Vai e faze a mesma coisa". E nós iremos... Na tua companhia.

Fonte: Desenho: Pe. Hugo Sosa, CM e Texto: Pe. Vinícius Teixeira, CM

sábado, 6 de julho de 2019

Lectio Vicentina: Maria



Maria na experiência espiritual de São Vicente de Paulo

Vicente de Paulo fixa sua atenção sobre três ícones, três mistérios que envolvem a vida de Maria e explicitam sua missão: a Imaculada Conceição, a Anunciação e a Visitação. A espiritualidade mariana de Vicente de Paulo situa-se no núcleo de sua experiência espiritual: dar-se a Deus para servir aos Pobres.

1.       A Imaculada Conceição
São Vicente vê, no mistério da Imaculada Conceição, a Virgem humilde e casta, vazia de si mesma para acolher a Deus e deixar-se plenificar por ele. Atitudes fundamentais para os que querem esvaziar-se de si mesmo e revestir-se do espírito de Cristo: “Previu Deus, pois, que, como era preciso que seu Filho tomasse carne humana de uma mulher, era conveniente que a tomasse de uma mulher digna de recebê-lo, uma mulher que estivesse cheia de graça, vazia de pecado, enriquecida de piedade e preservada de todos os maus afetos. Apresentou, então, diante de seus olhos todas as mulheres que havia no mundo e não encontrou nenhuma tão digna desta grande obra como a puríssima e imaculada Virgem Maria. Por isso, se propôs, desde toda a eternidade, preparar esta morada, adorná-la com os mais admiráveis e dignos bens que pode receber uma criatura, a fim de que fosse um templo digno da divindade, um palácio digno de seu Filho. Se a previsão eterna pôs, desde então, seus olhos para descobrir este receptáculo do seu Filho e, depois de descobri-lo, adornou-o com todas as graças que podem embelezar uma criatura, como ele mesmo declarou pela boca do anjo que lhe enviou como embaixador, com maior razão haveremos de prever o dia e a disposição requerida para receber-lhe!” (SV XIII, 35).

Acolher a Deus, encher-nos de Deus, revestir-nos de Jesus Cristo, vazios de nós mesmo, como a Imaculada, tal é o primeiro desafio que Vicente de Paulo nos propõe, à luz do exemplo da Virgem Maria. 

2.       A Anunciação
A humildade prepara e sustenta a oferta de si a Deus. Conhecer Deus e reconhecê-lo como único Senhor, saber-se pequeno diante dele, dar-se a ele para servir ao próximo, para realizar a sua obra, é o segundo movimento que Vicente descobre em Maria, a partir do ícone da Anunciação: “É preciso reconhecer a essência e a existência de Deus e ter algum conhecimento de suas perfeições antes de oferecer-lhe um sacrifício. Isso é natural, pois a quem ofereceis vossos presentes? Aos grandes, aos príncipes e aos reis. A esses é que rendeis vossa homenagem. Tão certo é isso que Deus observou esta mesma ordem na encarnação. Quando o anjo foi saudar a Virgem Maria, começou por reconhecer que estava cheia das graças do céu: Ave, gratia plena. Senhora, estás cheia e cumulada dos favores de Deus; Ave, gratia plena. Assim a reconhece e louva-a como cheia de graça. E o que faz em seguida? Aquele lindo presente da segunda pessoa da Santíssima Trindade. O Espírito Santo, reunindo o sangue mais puro da Santíssima Virgem, formou com ele um corpo; depois, Deus criou uma alma para informar aquele corpo e, em seguida, o Verbo se uniu àquela alma e àquele corpo por uma união admirável e, desta forma, o Espírito Santo realizou o mistério inefável da encarnação. O louvor precedeu o sacrifício” (SV XII, 226-227).

Como Maria na Anunciação, somos chamados a dar-nos inteiramente a Deus para realizar a sua obra: “Assim, pois, diz-se que é necessário buscar o Reino de Deus. Isso não é mais do que uma palavra, mas parece-me que diz muitas coisas. Quer dizer que temos de trabalhar de tal modo que aspiremos sempre ao que se nos recomenda, que trabalhemos incessantemente pelo Reino de Deus, sem ficarmos numa situação cômoda e parados (...). Buscai, buscai, isto quer dizer preocupação, isto quer dizer ação” (SV XI,131). A adesão de Maria à iniciativa de Deus serve-nos de estímulo na fidelidade ao dom da vocação.
           
3.       A Visitação
Vazios de nós mesmos e entregues a Deus, nossa vida está a serviço dos pobres: “vós vos destes a Deus para o serviço dos pobres”, recordava, com insistência, nosso fundador. São Vicente descobre na Visitação de Maria a Isabel este terceiro movimento do caminho espiritual e propõe a prontidão e a solicitude de Maria na Visitação como modelo para o serviço dos pobres: “Honrarão a visita da Santíssima Virgem quando foi visitar sua prima com prontidão e alegria” (SV XIII, 419). E assim deduzirá as aplicações concretas para a vida da Filha da Caridade: “A Companhia das Filhas da Caridade foi fundada para amar a Deus, servi-lo e honrar Nosso Senhor, seu amo, e à Santíssima Virgem. E como o honrareis? Vossa Regra vos indica, fazendo-as reconhecer o plano de Deus em vossa fundação: para servir aos pobres enfermos, corporalmente, administrando-lhes tudo o que lhes é necessário; e espiritualmente, procurando que vivam e morram em bom estado” (SV IX, 20).

Em toda e qualquer circunstância, São Vicente sempre nos conduz aos pobres. Como Maria, nossa vida é doação total a Deus para o cuidado e a promoção dos irmãos mais pobres.


INSPIRAÇÃO BÍBLICA: Lc 1,26-38 (Anunciação)
   Lc 1,39-56 (Visitação)


Lectio Vicentina: Perseverança na vocação



Conferência de 29 de outubro de 1638[1]

Foi Deus quem nos chamou e quem, desde toda a eternidade, nos destinou para ser missionários, não nos havendo feito nascer nem cem anos antes, nem cem anos depois, mas precisamente no tempo da instituição desta obra. Por conseguinte, não devemos buscar, nem esperar repouso, contentamento e bênçãos em outro lugar a não ser na Missão, já que é lá que Deus nos quer, assegurando-nos de que nossa vocação é boa e que não está fundada sobre o interesse, nem sobre o desejo de evitar os desconfortos da vida, nem mesmo sobre qualquer outro aspecto humano.

Nós somos os primeiros chamados. Diz-se que os primeiros de uma congregação são aqueles que entram nela durante o primeiro século de sua fundação, que é ordinariamente de cem anos. Visto que nós somos os primeiros escolhidos para reconduzir ao redil as ovelhas extraviadas, se nós fugirmos, o que será delas? Para onde pensamos fugir? Quo ibo a spiritu tuo et quo a facie tua fugiam [Para onde irei, longe do teu espírito; para onde fugirei, longe de tua face] (Sl 138, 7). Se um rei tivesse escolhido alguns soldados entre os outros para dar os primeiros assaltos, essa honra não seria para eles um poderoso motivo para fazê-los desistir de fugir?

Nesta vocação, vivemos em conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo que, ao vir ao mundo, escolheu como tarefa principal a de assistir os pobres e ocupar-se do bem estar deles. Misit me evangelizare pauperibus (Lc 4, 18). E se se pergunta a Nosso Senhor: “Que viestes fazer na terra?” – “Assistir os pobres” – “Algo mais?” – “Assistir os pobres”, etc. Ora, ele não tinha em sua companhia senão os pobres e pouco se detinha nas cidades, conversando quase sempre com os camponeses e instruindo-os. Assim, não nos sentimos felizes por estar na Missão pelo mesmo fim que levou Deus a fazer-se homem? E, se pudéssemos interrogar um missionário, não seria para ele uma grande honra poder dizer com Nosso Senhor: Misit me evangelizare pauperibus? É para catequizar, instruir, confessar, assistir os pobres que estou aqui. Ora, o que é que supõe esta conformidade com Nosso Senhor, senão a predestinação? Nam quos praescivit et praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui [Aqueles que Deus antecipadamente conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho] (Rm 8, 9). Se abandonamos nossa vocação, há motivo para recear que é a carne ou o diabo que nos afasta dela. Nós vamos obedecer-lhes? Porquanto, visto que foi Deus quem nos chamou, não será ele que nos afastará dessa vida. Deus não se contradiz. Entretanto, não sabemos dos segredos de Deus e não queremos julgar ninguém, mas sempre diremos que essa retirada é suspeita e duvidosa.

MEIOS:
1o É preciso pedir a Deus essa confirmação ou fortalecimento em nossa vocação; trata-se de um dom de Deus. 
2o É preciso ter grande estima por nossa vocação.
3o Guardar pontualmente todos os regulamentos da casa, pois, ainda que sejam poucos, não há nenhum que não seja importante.
4o Não permitir que se fale nem contra os superiores, nem contra a maneira de agir ou de administrar a casa.
5o Viver juntos em grande caridade e cordialidade.

            Ele [Padre Vicente] acrescentou, para consolar os Irmãos coadjutores em sua vocação, que eles levavam, assim como os padres, uma vida conforme a de Nosso Senhor e que eles imitavam a vida oculta de Jesus Cristo, durante a qual se ocupou com os exercícios corporais, trabalhando na oficina de um carpinteiro e em casa como um criado; dessa forma, eles [os Irmãos] imitavam uma vida de trinta anos, enquanto os padres, em suas funções, não imitavam mais do que uma de três anos e meio; que eles honravam a vida de servo de Nosso Senhor e os padres seu sacerdócio; e, desse modo, a conformidade com Nosso Senhor se encontra numa e noutra vocação; quanto ao restante, por causa da união que existe entre os membros de um mesmo corpo, o que um membro faz é obra também dos demais. Por isso, os irmãos confessam com os confessores, pregam com os pregadores, evangelizam os pobres com os padres da Missão que os evangelizam, e, por conseguinte, estão nessa supradita conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo.  

Inspiração bíblica: Rm 8, 28-30; Sl 139 (138)

Para refletir:
1.        São Vicente estava convicto de que a vocação dos seus missionários era uma iniciativa amorosa de Deus. Tenho permitido que essa convicção sirva de esteio para meu itinerário humano e vocacional, encorajando-me frente aos desafios da missão? 
2.        Jesus Cristo é a fonte do dinamismo do missionário vicentino. O que significa, para mim, a conformidade com a sua pessoa e a participação em sua missão de evangelizador dos pobres, no hoje concreto de nossa história? 
3.        Sinto-me verdadeiramente inserido na vida da Congregação, a ponto de poder dizer que todos nós, na pluralidade de dons, experiências e serviços, temos um ideal comum e tomamos parte em uma mesma Missão?





[1] SV XI, 107-109.

Lectio Vicentina: Exortação a um irmão moribundo



Exortação a um irmão moribundo 1645[1]

Sim, meu caríssimo irmão, é verdade, e não há por que duvidar, que sempre aprouve a Deus o fato de que vós o amais, mas especialmente nesta hora. A fim de que o amássemos, ele nos fez à sua imagem e semelhança, visto que não se ama, a não ser a quem lhe é semelhante, senão em tudo, ao menos em algo. Esse grande Deus, ao criar-nos com o plano de exigir de nós essa agradável ocupação de amá-lo e esse honroso tributo, quis colocar em nós o germe do amor, que é a semelhança, a fim de que não nos escusássemos, dizendo que não poderíamos retribuir-lhe jamais. Esse enamorado de nossos corações, ao ver que, por desgraça, o pecado havia deteriorado e manchado essa semelhança, quis romper todas as leis da natureza para reparar esse dano, mas com a vantagem maravilhosa de que não se contentou em devolver-nos a semelhança e a marca da sua divindade, mas quis, com o mesmo propósito de que o amássemos, fazer-se semelhante a nós e revestir-se de nossa própria humanidade. E quem vai querer, então, eximir-se de tão justa e salutar obrigação?

Ademais, como o amor é inventivo até o infinito, depois de haver subido ao patíbulo infame da cruz, para conquistar as almas e os corações daqueles por quem deseja ser amado, para não falar de outros inumeráveis estratagemas que utilizou para esse fim, durante sua passagem entre nós, prevendo que sua ausência poderia causar alguma dúvida ou esfriamento em nossos corações, quis se opor a esse inconveniente, instituindo o augusto sacramento, onde se encontra real e substancialmente como está no céu. Além disso, vendo que, rebaixando-se e aniquilando-se ainda mais do que havia feito na encarnação, poderia fazer-se, de algum modo, mais semelhante a nós ou, ao menos, fazer-nos mais semelhantes a ele, fez que esse venerável sacramento nos servisse de alimento e de bebida, pretendendo, por esse meio, que a mesma união e semelhança que se faz entre a natureza e a substância se fizesse espiritualmente em cada um dos homens. Porque o amor pode e quer tudo, ele assim o quis; e por receio de que os homens, não entendendo bem este inaudito mistério e estratagema de amor, fossem negligentes em aproximar-se deste sacramento, obrigou-os a ele sob pena de incorrer em sua desgraça eterna: Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, non habebitis vitam [Quem não comer a carne do Filho do Homem, não terá a vida] (Jo 6, 54). 

Vede como ele se esforçou, por todos os meios imagináveis, em conseguir que todos os homens o amassem; e, para isso, deveis excitar vosso coração, para pagar este justo e suave tributo ao amor de um Deus que foi o objeto de todos os seus desígnios sobre vós e que, para obtê-lo, fez tudo o que fez por vós. Crede que o maior presente que podeis oferecer-lhe é o vosso coração, e ele não vos pede nada mais: Fili, praebe mihi cor tuum [Filho, dai-me o teu coração (Prov 23, 26)].

Inspiração bíblica: 1Jo 4, 7-16; Sl 145(144).

Para refletir:
1)       Tenho consciência de que, ao receber o corpo e o sangue de Cristo Jesus, estou comungando de sua vida e de sua missão?
2)       A Eucaristia, memorial da Páscoa de Jesus, faz de mim um homem capaz de viver a comunhão com todos, em especial com os mais pobres?
3)       A minha participação na Eucaristia leva-me a redescobrir continuamente o amor infinitamente inventivo do Senhor e a comunicá-lo no cotidiano de minha vida e na minha ação missionária? 



[1] SV XI, 145-147.

Lectio Divina: a Vontade de Deus



Conferência de 15 de outubro de 1655[1]

            Havia três pontos: no primeiro, as razões que temos para entregar-nos a Deus, para fazer, sempre e em todas as coisas, sua santa vontade; no segundo, em que consiste tudo isso, e os atos; e no terceiro ponto, os meios para adquirir essa prática de fazer, sempre e em todas as coisas, a vontade de Deus.

            Padre Vicente, depois de anunciar, dessa maneira, o assunto da conferência, disse à Companhia:

            Começarei falando primeiro e, em seguida, falarão alguns outros da Companhia. As razões, senhores Padres, que temos para entregar-nos a Deus e adquirir esta santa prática de fazer sua vontade, sempre e em todas as coisas, são as seguintes: A primeira é tirada do Pai nosso, que todos os dias repetimos e que Nosso Senhor nos ensinou: Fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra (Mt 6,10). Faça-se a vossa vontade assim na terra como no céu. Nosso Senhor quer que, assim como os anjos e os bem-aventurados do céu fazem incessantemente sua santa e adorável vontade, também a façamos nós, aqui na terra, de forma semelhante e que a façamos com a maior perfeição possível, etc.

            A segunda razão, senhores Padres, é que Nosso Senhor deu-nos este exemplo, pois não veio à terra para outra coisa, a não ser para fazer a vontade de Deus, seu Pai, levando a bom termo a obra de nossa redenção; e nisto consistiam suas delícias, em fazer a vontade de Deus, seu Pai, etc.

            Em que consiste fazer a vontade de Deus? Digo-vos que devemos considerar a vontade de Deus, tanto no que diz respeito às coisas ordenadas quanto nas coisas proibidas, como no que diz respeito às coisas que não foram ordenadas nem proibidas e que são indiferentes ou aconselhadas.

            Em relação à vontade de Deus, que nos manda fazer uma coisa, manifestada por meio de sua lei, de seus mandamentos, dos mandamentos de sua Igreja e daquilo que nos proíbe por meio dos mesmos mandamentos; pois há preceitos que mandam fazer uma coisa e outros que nos proíbem fazer outra; e, em ambos os casos, se cumpre a vontade de Deus, quando se faz o que ele ordena, ou não se faz o que ele proíbe. Além disso, Deus quer, e tal é o seu beneplácito, que se obedeça aos prelados da Igreja, aos reis, aos magistrados, quando eles nos ordenam ou proíbem alguma coisa, às disposições do reino onde alguém está, ao pai, à mãe, aos parentes e a seus superiores. Fazendo isso, faz-se a vontade de Deus.

            Quanto às ações indiferentes, que não são nem ordenadas, nem proibidas, nem agradáveis, nem desagradáveis...Se são agradáveis, como comer e beber, ou necessárias, Deus deseja que as façamos, por amor a ele e porque ele o quis assim, prescindindo do prazer que aí sente a natureza. Se não são necessárias, Deus deseja que nos privemos delas e nos mortifiquemos; se são desagradáveis e mortificantes para a natureza, que as abracemos. Quem quiser vir após mim – diz Nosso Senhor – que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Se não tem nada de agradável, nem de desagradável, como estar de pé, andar por este caminho ou por outro, a vontade de Deus é que tudo façamos por amor a ele. São Paulo disse: Sive manducatis,sive bibitis,sive aliud quid facitis, omnia in gloriam Dei facite (1Cor 10,34). Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a maior glória de Deus. De modo que, se quisermos, podemos fazer sempre a vontade de Deus. Oh! Que felicidade, que felicidade, senhores Padres, fazer, sempre e em todas as coisas, a vontade de Deus! Não é isto que o Filho de Deus veio fazer na terra, como já vos dissemos? O Filho de Deus veio para evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18); e nós, padres, não fomos enviados para fazer a mesma coisa? Sim, os missionários foram enviados para evangelizar os pobres. Que felicidade fazer na terra o mesmo que fez Nosso Senhor, que é ensinar o caminho do céu aos pobres!

            Os meios para isso consistem em ter o cuidado de direcionar a intenção, no começo de cada ação que fizermos, dizendo a Deus: “Meu Deus, é por vosso amor que vou fazer isto; é por vosso amor que vou deixar tal coisa para fazer essa outra”. Porque, vede, meus padres e irmãos, a boa intenção que formulamos no começo de nossas ações é como a forma. Verbi gratia, assim como para o batismo não basta molhar o menino, o que constitui apenas a matéria, para que seja batizado, mas é preciso, além disso, a intenção e as palavras, que são a forma; de outra maneira o menino ficaria sem ser batizado. Do mesmo modo, a boa intenção que formulamos no começo de nossas ações, que devem ser feitas por amor a ele [Deus], eleva-as [as ações] até o trono da majestade de Deus e as faz merecedoras da vida eterna. Peçamos a Deus que nos conceda essa graça de fazer, sempre em todas as coisas, sua santa e adorável vontade e de adquirirmos essa prática. Queira Deus conceder-nos essa graça!    

Inspiração bíblica: Sl 143 (142); Mt 12, 46-50.

Para refletir:

1)       Minhas escolhas pessoais, meu estilo de vida e os esforços que empreendo são orientados por uma opção fundamental por Deus e por um desejo sincero de fazer a sua vontade?
2)       Estou convencido de que o cumprimento da vontade de Deus plenifica minha existência, harmonizando meu agir e meu falar, meu falar e meu pensar, meu pensar e meu ser? 
3)       Permito que a minha consciência, os acontecimentos do cotidiano, a convivência com os outros, os “sinais dos tempos” inspirem o discernimento da vontade de Deus em relação a mim e à comunidade a que pertenço?




[1] SV XI, 313-316.

Lectio Vicentina: a Compaixão e a Misericórdia




Conferência de 06 de agosto de [1656][1]

                Quando vamos ver os pobres, devemos entrar em seus sentimentos para sofrer com eles e colocar-nos nas disposições daquele grande apóstolo que dizia: Omnibus omnia factus sum (1 Cor 9, 22), fiz-me tudo para todos; de forma que não recaia sobre nós a queixa que fez outrora Nosso Senhor por um profeta: Sustinui qui simul mecum contristaretur, et non fuit (Sl 68, 21), esperei para ver se alguém se compadecia de meus sofrimentos, e não encontrei ninguém. Para isso, é preciso empenhar-nos em enternecer nossos corações e torná-los sensíveis aos sofrimentos e  misérias do próximo, pedindo a Deus que nos dê o verdadeiro espírito de misericórdia, que é o espírito próprio de Deus; pois, como diz a Igreja, é próprio de Deus fazer misericórdia e comunicar-nos esse mesmo espírito. Peçamos, pois, a Deus, meus irmãos, que nos dê este espírito de compaixão e de misericórdia, que nos encha dele, que no-lo conserve, de forma que quem vir um missionário possa dizer: “Eis aqui um homem cheio de misericórdia”. Pensemos um pouco na necessidade que temos de misericórdia, nós que devemos exercitá-la para com os demais e levar a misericórdia a todos os lugares, sofrendo tudo pela misericórdia.

                Felizes nossos coirmãos que estão na Polônia e que sofreram tanto durante estas últimas guerras e durante a peste, e que ainda sofrem para exercitar a misericórdia corporal e espiritual e para aliviar, assistir e consolar os pobres! Felizes missionários, aos quais nem os canhões, nem o fogo, nem as armas, nem a peste puderam fazer sair de Varsóvia, onde os retinha a miséria dos outros; que perseveraram e ainda perseveram, corajosamente, em meio a tantos perigos e sofrimentos, pela misericórdia! Oh! Como são felizes por empregar tão bem este breve tempo de nossa vida na misericórdia! Sim, este momento, porque nossa vida não é mais do que um momento, que passa tão depressa e logo desaparece. Ah! Meus setenta e seis anos de vida não me parecem agora mais do que um sonho e um momento; e nada me resta deles, a não ser o pesar por haver empregado tão mal esses instantes. Pensemos no pesar que teremos, à hora de nossa morte, se não nos servirmos deste momento para fazer misericórdia.

                Sejamos, pois, misericordiosos, meus irmãos, e exercitemos a misericórdia para com todos, de forma que nunca encontremos um pobre sem consolá-lo, se o pudermos; nenhum homem ignorante, sem ensinar-lhe, em poucas palavras, as coisas nas quais ele precisa crer e o que ele precisa fazer para sua salvação. Oh Salvador, não permitais que abusemos de nossa vocação, nem tireis desta companhia o espírito de misericórdia. Que seria de nós, se nos retirásseis vossa misericórdia? Concedei-nos, pois, esse espírito, junto com o espírito de mansidão e de humildade. 

Inspiração bíblica: Sl 84(83); Lc 10, 25-37.

Para refletir:
Na parábola do Samaritano, Jesus nos propõe o caminho da misericórdia: ver, comover-se e agir. São Vicente nos convida a encarnar, em nossa ação missionária, essa mesma atitude dinâmica.
1)       Procuro VER a realidade dos pobres e, ainda mais, o rosto concreto de cada um deles, tal como se apresentam, ou limito-me a um olhar superficial, tendencioso e generalizante, incapaz de chegar às raízes dos dramas individuais e coletivos?
2)       Quando sou capaz de COMOVER-ME, deixo o sofrimento alheio “remexer as entranhas do meu coração”, sinto, de fato, a dor do outro que está caído à beira do caminho, ou simplesmente sou tomado por um sentimentalismo estéril?
3)       O olhar atento, que vai às raízes mais profundas, e o coração que se debruça sobre a miséria do outro me impelem a uma AÇÃO, entedida também como cuidado, para “fazer justiça ao oprimido”, tornando-o protagonista de sua própria história?  



[1] SV XI, 340-342.

Lectio Vicentina: Conselhos aos jovens estudantes que iam começar a filosofia



Conferência de 23 de outubro de 1658[1]

Uma vez que os estudantes estavam preparados para começar os estudos de filosofia, foram levados pelo Padre Guillot, sacerdote da Companhia e diretor dos mesmos, para visitar o Padre Vicente e, postos de joelhos diante dele, pediram-lhe sua bênção. Ele lha concedeu, pondo-se também de joelhos, como costumava fazer. Recomendou-lhes muito que estudassem com o espírito que Nosso Senhor deseja, a fim de servir melhor a Deus e com maior utilidade ao próximo; que tivessem muito cuidado para que o orgulho não se apoderasse de seus corações pelo desejo de sobressair-se, de serem elogiados, de ter êxito nos estudos; muitos jovens, ao saírem do noviciado e do seminário, se perdem, com freqüência, por esse motivo e perdem o espírito do seminário. Pois bem, para evitar que esse mal nos aconteça, irmãos meus, não procureis alcançar êxitos, obter prêmios, nem vos distinguir na argumentação, seja defendendo, seja objetando; mas desejai, aspirai e pedi muito a Nosso Senhor que vos conceda a graça de amar e de praticar a humildade em tudo e por tudo, de gostar do desprezo de vós mesmos, de não buscar nem desejar mais do que isso e, sobretudo, de pensar que, se tendes algo em vós mesmos que vos faz dignos de um pouco de estima, é porque Deus vo-lo deu. Vivei, meus irmãos, com este espírito; procurai, meus irmãos, conservá-lo, se é que já o tendes; e se não o tendes, pedi-o insistentemente a Nosso Senhor. Que a filosofia que ides aprender vos sirva para amar e servir melhor a Deus, para elevar-vos até ele por amor e que, ao mesmo tempo em que estudais a ciência e a filosofia de Aristóteles e aprendeis todas essas divisões, aprendais também a de Nosso Senhor e suas máximas e as ponhais em prática, de forma que tudo o que aprendeis vos sirva, não para encher de orgulho os vossos corações, mas para servir melhor a Deus e à sua Igreja. A filosofia é muito útil a uma pessoa, quando a mesma se serve dela como é devido e com o espírito que Nosso Senhor deseja; quando se age de outro modo, só serve para levar as pessoas a se perderem e para tornar seus corações orgulhosos.

Inspiração bíblica: Ef 3, 14-21; Sl 19 (18).

Para refletir:
1. A filosofia está contribuindo para o amadurecimento das minhas convicções, para a ampliação da minha visão de mundo e para o meu processo de humanização?
2. Os estudos têm-me despertado para a experiência de Deus e para uma opção existencial por ele?
3. Tenho sido interpelado pela filosofia a uma maior abertura ao outro e a um compromisso efetivo com a transformação da realidade, ou tenho permitido que o orgulho intelectual me encastele em mim mesmo? 





[1] SV XII, 63-64.

Oração: Ano de Colaboração da Família Vicentina


Vem, Espírito Santo, encha os corações dos teus fiéis, e acenda neles o fogo do teu amor. Envia teu Espírito Criador

Canto: Vem Santo Espírito

Ant. Reuniram-se no dia de Pentecostes e receberam o Espírito Santo.

Salmo 113
Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor.
Bendito seja o nome do Senhor, agora e para sempre.
Desde o nascer ao pôr-do-sol, seja louvado o nome do Senhor.
O Senhor é excelso sobre todos os povos, sua glória ultrapassa a altura dos céus.
Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem seu trono nas alturas
e do alto olha o céu e a terra? Ele levanta do pó o indigente,
e tira o pobre do monturo,
para, entre os príncipes, fazê-lo sentar,
junto dos grandes do seu povo.
E a mulher, que, antes, era estéril,
ele a faz, em sua casa, mãe feliz de muitos filhos.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo…

Ant. Reuniram-se no dia de Pentecostes e receberam o Espírito Santo.

Ant. O Espírito Santo que te inundou com sua presença te chama para dar uma resposta generosa.

Salmo 11
É junto do Senhor que procuro refúgio. Por que dizer-me:
"Foge velozmente para a montanha, como um pássaro,
Eis que os maus entesam seu arco, e ajustam a flecha na corda.
Para ferir, de noite, os que têm o coração reto?
Quando os próprios fundamentos se abalam, que pode fazer ainda o justo?"
Entretanto, o Senhor habita em seu templo; O Senhor tem seu trono no céu.
Sua vista está atenta,
Seus olhares observam os filhos dos homens.
O Senhor sonda o justo como o ímpio,
Mas aquele que ama a injustiça, ele o aborrece.
Sobre os ímpios ele fará cair uma chuva de fogo e de enxofre, Um vento abrasador de procela será o seu quinhão.
Porque o Senhor é justo, ele ama a justiça;
E os homens retos contemplarão a sua face.
Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo... e Ant.

Ant. Ficaram cheios todos eles do Espírito de Deus, e começaram a falar. Aleluia!

Cântico (Ap 19,1-2.5-7)

Aleluia, Aleluia!
Ao nosso Deus a salvação! Honra, glória e poder! Aleluia!
 Pois são verdade e justiça os juízos do Senhor.
 Aleluia, Aleluia!

Aleluia, Aleluia!
Celebrai o nosso Deus Servidores do Senhor. Aleluia!
E vós todos que o temeis, vós os grandes e os pequenos.
Aleluia, Aleluia!

Aleluia, Aleluia!
De seu reino tomou posse nosso Deus onipotente! Aleluia!
Exultemos de alegria, demos glória ao nosso Deus.
Aleluia, Aleluia!

Aleluia, Aleluia!
Eis que as núpcias do Cordeiro redivivo se aproximam! Aleluia!
Sua Esposa se enfeitou, se vestiu de linho puro.
Aleluia, Aleluia!
Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo... e Ant.
Leituras sugeridas para a meditação:

         A JEAN DE FONTENEIL 29 de agosto de 1635:“Sinto-me ainda confuso pela caridade que exerceste e continuamente exerceis para com meu pobre irmão. Como tudo fizestes por amor a Deus, e como o reconhecimento por tantos benefícios está acima de nossas possibilidades, rogo a Nosso Senhor, senhor padre, seja ele mesmo nosso agradecimento e vossa recompensa”.

           A JEAN DE FONTENEIL 7 de dezembro de 1634: “Por tudo isso vos agradeço, senhor padre, muito humildemente, e rogo a Nosso Senhor seja ele mesmo nossa gratidão para convosco e vossa recompensa. Derrame sobre vós cada vez mais a abundância de suas graças e bênçãos. Ó senhor padre, como meu coração fica repleto de consolação, todas as vezes que o referido padre de La Salle me escreve sobre o vosso zelo pela salvação das almas, vossa assiduidade no  esforço  por  conquista-las,  as  bênçãos  que  Nosso  Senhor  vos concede e a virtude sólida que está em vós! Com certeza, senhor padre, tudo isso produz em mim uma alegria, que não sou capaz de voz exprimir, e um fervor todo especial, ao pedir a Deus que lhe apraza continuar a conceder-vos as mesmas graças, e a aumenta-las”.

           A ETIENNE BLATIRON 14 de fevereiro de 1648: “As graças que Deus derrama sobre vossos trabalhos são frutos de sua pura misericórdia e não de nossas insignificantes preces; somos pobres pessoas, mais capazes de desviar suas bênçãos do que de atraí-las. Agradeço a sua divina bondade pelo zelo e fidelidade que concede a vosso coração e àqueles que estão convosco. Com certeza, senhor padre, fico sensibilizado com o uso que fazeis dessas virtudes e de muitas  outras;  quando  se  apresenta  a  ocasião  de  estimular  a comunidade de São Lázaro no sentido de sua própria perfeição, falo dos exemplos que a vossa nos dá; relato-lhe vossos trabalhos, apesar das  enfermidades  de  alguns,  vossa  paciência  nas  dificuldades,  a caridade e o suporte que tendes uns para com os outros, a graciosa acolhida, a iniciativa de honrosa atenção e os serviços que os externos recebem de cada um de vós. Por aí vedes, senhor padre, que o mel de vossa colmeia se derrama até nesta casa e serve para alimento de seus filhos. Ó Deus! Que motivo de consolação para toda a Companhia, mas também, que motivo para a nossa pequena comunidade se humilhar diante de Deus e agir sempre cada vez melhor, pois ele se apraz em estender e multiplicar assim os bens que produz, até nos lugares onde não está!”.

Ant. “Queira Deus dar-lhes forças e fazer que reine entre vocês a união! Porque, se estão todas unidas, vocês serão mais fortes.”  (VII:391)

Oração dos Fiéis
Pai amado, que amas os pobres, envia teu Espírito do céu. Pai generoso, que inspirastes a Vicente e aos outros fundadores da família Vicentina a escutar o clamor dos pobres te pedimos:

-  Por  aqueles  que  vivem  a  pobreza,  por  aqueles  que  a  quem estamos chamados a servir, que vejamos sempre tua imagem neles e respondamos generosamente às suas necessidades. Os mansos, os que choram, aqueles que têm fome e estão necessitados de justiça…. Teu povo abençoado.

-  Neste ano de colaboração unimos nossos esforços, como Família Vicentina, sempre desejando ter este amor que é criativo até o infinito.

-  Que sejamos um povo agradecido que reconhece e aprecia nossa rica herança Vicentina e inspiremos a outros a unirem-se a nós como Padres, Irmãos, Irmãs e Leigos da Família Vicentina, numa rede de Caridade.

- Que sempre  possamos  construir  sobre  nossos  irmãos  e irmãs Vicentinas   que   nos   antecederam,   unidos   a   eles   que possamos um dia conhecer a alegria da vida eterna.

Senhor, tende piedade de nós – Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós – Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós – Senhor, tende piedade de nós.
Maria, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa – Rogai por nós.
São Vicente de Paulo – rogai por nós.
Santa Luisa de Marillac – rogai por nós.
Santa Isabel Ana Seton – rogai por nós.
Santa Catarina Labouré – rogai por nós.
Santa Joana Antida Thouret – rogai por nós.
Beato Frederico Ozanam – rogai por nós.
Todos os santos da Família Vicentina – rogai por nós.
Senhor, tende misericórdia de nós – Senhor, salva o teu povo.
Tende misericórdia de nós pecadores – Senhor, escuta nossa oração.

Pai Nosso...

Oremos: 
Deus Misericordioso, seja nossa luz,  nossa  verdade  e  o  caminho  que possamos seguir para continuar o trabalho que confiou à Família Vicentina.
R. Amém.

REFERENCIAS VICENTINOS - Caminho de Santidade



Beata Lindalva Justo de Oliveira
Mártir da Castidade e Testemunho da Caridade

“Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8)

A Bem-aventurada do Coração:
Quem vive em Deus e experimenta sua ternura em cada acontecimento de sua vida, ao final, sente-se fisgado por uma clara e simples transparência de sua misericórdia e fidelidade que faz a vida muito mais humilde, entranhável, acolhedora e com uma pertença absoluta aos desígnios de Deus em sua própria vida e na vida dos Pobres, a partir da gratuidade.

Lindalva Justo de Oliveira, uma jovem sociável, prudente e generosa, nasceu em 20 de outubro de 1953 no sítio Malhada da Areia, uma zona muito pobre do Estado de Rio Grande do Norte (Brasil). Era a sexta de treze irmãos. Foi batizada em 07 de janeiro de 1954. Em sua família aprendeu as primeiras noções da fé e as orações cristãs. Lindalva teve como primeiros orientadores espirituais os seus padres, desde menina era muito piedosa, engraçada e alegre, ao mesmo tempo que se mostrava muito sensível com os Pobres.

Percebe-se nestes traços, que é uma pessoa BEM-AVENTURADA, feliz, porque abriu sua vida e seu coração aos fracos, aos mais pequenos, vai desaparecendo nela todo afã de posse e egoísmo, é feliz porque vai descobrindo a Deus em seu caminho e começa a descobrir o sentido de sua vida e de seu caminhar.

“Que alegria poder seguir a Jesus! Que privilégio!
Que felicidade! É impossível resistir a tanto amor”
(Ir. Lindalva)

Vocação e seguimento a Jesus Cristo:
Depois do falecimento de seu pai, Lindalva, que sempre desejou se consagrar a Deus, ingressou em um grupo de jovens vocacionados de sua paróquia. Deus começa a se manifestar em sua vida, começa a falar-lhe ao coração e ela se deixa guiar por essa voz. Em 1986, começa a frequentar o movimento vocacional das Filhas da Caridade, participando regularmente em encontros formativos e amadurecendo sua ideia de servir aos Pobres.

Com um imenso desejo de perfeição espiritual recebeu o Sacramento do Crisma em 1987. Nesse mesmo ano pediu para ser admitida na Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, querendo dedicar sua vida ao serviço de Cristo na pessoa dos Pobres. Seu pedido foi aceito e é assim como inicia a etapa do Postulantado em Olinda – PE (Brasil). A partir desse momento o Senhor será seu único Senhor, o que enche seu coração, o único para quem volta todo o seu olhar.

Humilde, obediente e muito serviçal para com todos, tem que vencer o apego a sua família, e com o acompanhamento recebido, pouco a pouco dirá: “amo mais a Cristo que a minha família!” Nesta etapa de postulantado vai se deixando modelar por Deus, procura que sua vida esteja preenchida somente por Deus, distanciando-se do egoísmo e orgulho e fazendo de sua vida uma doação completa aos mais Pobres.

Em sua formação no Seminário, distinguia-se por seu sorriso, sua humildade e seu amor aos mais Pobres. Era fiel à oração, obediente e tinha grande espírito de sacrifício, bem como, empenhava-se no crescimento de sua perfeição. Neste tempo de formação se enche do espírito da Companhia, das virtudes próprias da vocação e sobretudo, deixa-se seduzir pelo Senhor. É Ele quem toma sua vida por dentro e a vai preparando para a maior entrega, que não é outra, senão que dar a vida por amor. É um impulso do Espírito que ela generosamente aceita como dom de Deus. Sente-se impulsionada a viver cada dia na vontade de Deus, acolhendo seus desígnios, fiel à Divina Vontade e entregando-se generosamente.

Missão e Martírio:
Em janeiro de 1993, chegou ao asilo um homem de 46 anos, Augusto da Silva Peixoto. Ainda que não tivesse direito ao asilo por sua idade, tinha conseguido uma recomendação para ser acolhido ali. Ir. Lindalva o tratava com a mesma cortesia que aos demais hóspedes, mas este homem, de caráter difícil, enamorou-se da jovem irmã. Assim começou para ela um período de provas muito pesadas. Compreendendo as intenções de Augusto, ela tentou fazer-lhe entender que ela estava totalmente consagrada a Deus. Ainda que tivesse medo desse homem, não quis distanciar-se do asilo para não abandonar seu serviço aos idosos. "Prefiro derramar meu sangre, que ir embora", confessou ela a uma de suas irmãs.

Diante do comportamento de Augusto, avisou ao Diretor do Serviço Social do Asilo; este chamou a atenção do homem, o qual prometeu se corrigir. Mas nos dias anteriores à Semana Santa aumentou nele a raiva e o ódio, assim como o desejo de vingança, chegando a elaborar um plano fatal.

Na Segunda-feira Santa, 05 de abril, Augusto comprou uma faca de pescador numa feira. Na noite de Quinta-feira Santa esteve caminhando todo o tempo entre o dormitório e o banheiro, e a seus companheiros que lhe interpelavam, respondia que estava com insônia.
Na Sexta-feira Santa, 09 de abril, às 4h30 da manhã, Ir. Lindalva participou da Via-Sacra da Paróquia. Ao retornar ao Asilo, foi como de costume ao pavilhão São Francisco para servir o café da manhã aos idosos. Ela ficou, como sempre, detrás da mesa onde as refeições eram servidas aos hóspedes. Atrás da mesa havia uma portinha, com uma escada externa que dava para o jardim.

Augusto esperou a que Ir. Lindalva servisse o café da manhã; chegou pela escada externa, abriu a porta e esfaqueou-a por detrás, encima da clavícula. A faca, atravessou a veia jugular, penetrando profundamente no pulmão. O homem, tomado por um êxtase incontrolável, continuou ferindo-a em vários pontos do corpo, enquanto os hóspedes, depois de um primeiro momento de surpresa, tentavam intervir. Augusto, segurando com firmeza a faca, detrás da mesa, ameaçava matar a quem se aproximasse. Diante dos tribunais, o assassino declarou que tinha matado a Irmã, precisamente, porque o havia rejeitado.

No dia seguinte, o Sábado Santo, pela manhã o arcebispo cardeal Lucas Moreira Neves, ao celebrar a cerimônia fúnebre, destacou a coincidência da morte violenta da mártir Ir. Lindalva, que deu sua vida pelo serviço aos pobres, a Paixão e Morte de Cristo.


Ján Havlík
Mártir por fidelidade a sua vocação
“Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos...” (Mt 5,11)
No período da perseguição comunista na Europa Leste que durou quase 45 anos (1945 – 1990) destaca-se entre muitos exemplos de pessoas valentes um homem chamado Ján Havlík, mártir vicentino do século XX. Homem de palavra que levou uma vida de santo, com uma profunda piedade mariana, perseverante em sua vocação missionária e amante da oração. 
Ján Havlík, seminarista da Congregação da Missão, nasceu em Dubovce, Eslováquia, em 12 de fevereiro de 1928. Influenciado por sua tia que era Filha da Caridade, entrou na Congregação da Missão em Banska Bystrica em 1943 e ali terminou a escola secundária em 1949. Quando os comunistas, em conjunto com a polícia secreta, invadiram a casa dos Padres Vicentinos, na noite de 03 para 04 de maio de 1950, parecia que todo estava perdido. Janko, junto a outros seminaristas, não se rendeu, e com a ajuda dos sacerdotes vicentinos continuou sua formação em um seminário clandestino até 29 de outubro de 1951, quando foi preso junto com outros seminaristas da Congregação da Missão na cidade de Nitra. Durante os seguintes 16 meses, foi torturado pela Polícia Federal. Num processo fingido, foi acusado de ser espião do Vaticano para preparar um Golpe de Estado. Durante este processo declarou toda sua motivação: “Minha meta principal foi o desejo de ser sacerdote. Segui minha consciência e não tenho nada mais que acrescentar”.
Foi condenado a catorze anos de prisão. Na cadeia foi interrogado, torturado e deixado sem comida e sem abrigo, e mesmo com esse profundo sofrimento sempre se comportou valentemente. Confessou a um de seus amigos: “Sinto-me como se estivesse nas missões, porque é o lugar mais apropriado e mais exigente, nenhum missionário tem um lugar como este.” Além disso, prolongaram sua condenação, sem julgamento, por mais um ano... por haver tentado contagiar aos demais condenados com suas crenças... Foi levado ao campo de trabalhos forçados de Rovno Jáchymov, onde trabalhou em minas de urânio. Este trabalho deteriorou muito sua saúde. Cumpriu o último período como preso na cadeia de Valdice. Em outubro de 1962, foi finalmente liberado, depois de onze anos na prisão, mas com uma saúde frágil devido ao sofrimento físico e ao estresse psíquico vividos. Durante este tempo da liberação condicional esteve sobre vigilância, porque como dizem os prontuários da polícia secreta sobre ele: “continua sendo um feroz inimigo do regime socialista, vive em suas convicções..., e parece que os resultados da condenação não correspondem as expetativas...” sua saúde se deteriorava com rapidez neste tempo. Ainda conseguiu celebrar o natal do ano 1965 com sua família, mas quando se dirigia a uma cidade próxima, para resolver alguns assuntos, em 27 de dezembro de 1965, morreu ali, sem testemunhas, em uma rua, apoiando-se em uma lata de lixo.
Mártir em fidelidade a sua vocação, foi fiel, ainda que diante dos olhos do mundo não conseguiu chegar a sua meta de ser sacerdote missionário. No entanto, deixou-nos um exemplo extraordinário de fidelidade, sendo um jovem sem se desviar, um seminarista vicentino que apesar das circunstâncias, não deixou de evangelizar “proclame a Palavra, insista no tempo oportuno e inoportuno...” (2Tim 4,2). Como descreveram os que conviveram com ele: ele foi a luz nas profudezas das minas de urânio de Jachymov.
Em 09 de junho de 2013 começou a investigação diocesana sobre seu martírio. Depois de quatro anos e oito meses deu-se a conhecer a investigação sobre o martírio de Ján Havlík e o Tribunal Diocesano deu por terminada tal fase diocesana em 24 de fevereiro de 2018, na paróquia de São Vicente de Paulo em Bratislava. Todos os documentos que contém os testemunhos sobre sua vida, informes históricos e avaliações médicas foram enviados à Congregação para as Causas dos Santos no Vaticano. Esperemos que logo tenhamos um novo beato.
A Congregação da Missão vive com alegria esta grade notícia, já que o seminarista Ján se transforma em um exemplo vocacional e testemunho para muitos jovens que desejam viver sua vocação missionária no serviço aos pobres, seguindo os passos de São Vicente de Paulo.


Maria Vitória Cikes
Testemunho de fé, alegria e serviço
(1975-2002)


“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.” (Mt5,3)
   
Maria Vitória foi uma jovem de nosso tempo, como você e como eu, que decide seguir a Jesus Cristo e encontra esse caminho na Família Vicentina.
Chega a JMV na semana santa de 1997, convidada por um dos padres vicentinos que na época, era o assessor do grupo de adultos. O Padre Wilfredo Aguilera a convidou a conhecer o bairro onde estava trabalhando com as crianças da catequese. Entusiasma-se nesta tarefa e começa a assisti-los mais assiduamente, bem como a participar das reuniões de formação. Como em todos nossos países, preparam-se encontros, na Argentina organiza-se o Encontro Provincial em Luján, onde ela participa dos preparativos; também o faz com a Assembleia Provincial e com o festejo dos 150 anos da Associação.

Em 1998 participa da Missão Provincial em Laureles, Paraguai. Esta tarefa muda completamente sua vida e sua visão de mundo. Participa do Encontro Regional de Paraguai e da jornada de Espiritualidade Vicentina em Luján, bem como do III Encontro Latino Americano da JMV em Colômbia. Ao se formar o Conselho Latino Americano da JMV, é-lhe proposto que ela fizesse parte do mesmo representando a região do Cone Sul. Em novembro, participa da Assembleia Provincial em Florida (Uruguai), onde assume a pasta da comunicação e passa a se ocupar da edição da revista Provincial: Medalha Milagrosa.

Em janeiro de 1999, pela última vez, participa da Missão Provincial em Paraguai. Participa também da primeira Escola de Catequese na Argentina. Em agosto, reúne-se com o Conselho Latino Americano, em Venezuela, e participa do VII Encontro Nacional desse país. Realiza-se uma votação e Vitória é eleita Coordenadora do Conselho.

Em fevereiro de 2000, depois de ter participado da II Escola de Catequese, recebe diagnóstico de sua doença. Estas foram suas palavras: “Tal vez tivesse sido melhor delegar minhas tarefas a outra pessoa, mas diante de Deus acreditei que não devia fazê-lo e que podia seguir acompanhando-os... Graças a Deus e às orações de muitos de vocês pude fazê-lo, e me recordaram que não estou só, que a comunhão dos Santos é real e poderosíssima e que o amor de Deus se manifestou no amor deles, e isso é o mais bonito que experimentei...”

Ainda em meio a sua dor, preocupava-se por seus companheiros de grupo, pelos jovens do bairro, a quem animava através de sua família.
Depois de uns meses de tratamento regressava a sua casa e continuava suas tarefas. Preparou junto a sua comunidade de JMV, o Rosário da Aurora desse ano, e cansada, mas feliz, chegava ao destino, caminhando pelas ruas da cidade, rezando com toda as pessoas. Ajudou a organizar a Missão Provincial do 2001 em Paraguai e junto a sua mãe despediu-se dos jovens na porta da Basílica.
Esse mesmo ano, depois de alguns tratamentos, anunciam que deveria esperar por um transplante de medula. Como sua enfermidade estava estável, ela decide participar do IV EMLA em Venezuela, nada a deixa mais feliz. E, a partir dali, ainda continuou animando os jovens com estas palavras. O importante agora é compreender que em nossas mãos temos a possibilidade de demonstrar a Maria que mesmo depois de 171 anos continuamos respondendo ao pedido que ela fez à Catarina. Decidamos então que atitude tomar. Deixarei passar outra vez o trenzinho do compromisso verdadeiro ou me subirei de uma vez e aceitarei o desafio de protagonizar esta grande aventura que Jesus e Maria me convidam a partir da JMV?”.

Quando regressa recebe a grande notícia de que tinha aparecido um doador compatível para ela. Todo se encaminha para o grande momento e é operada. Foi no mês de outubro de 2001. Todo sai melhor do que esperado, e colabora uma vez mais na preparação da Missão que esta vez seria na Argentina. Saiu com sua comunidade a realizar os últimos ajustes para a missão e uma vez mais os animou para que dessem tudo de si mesmos naquela tarefa que Deus lhes tinha encomendado. É memorável sua cara de felicidade pelo que estavam por viver, seu entusiasmo por cada detalhe da missão marcou a sua comunidade. Sua enfermidade não atrapalhou sua entrega e sua serviço na missão.

Lamentavelmente depois de tudo ter saído tão bem, houve complicações. As últimas palavras que disse por telefone, já que não nos permitiam vê-la, foram para dar alento e para dizer que ela rezaria por nós da Associação.
E foi em um 07 de maio, pela manhã, quando se despediu desta vida. Pessoas que a conheciam de muito tempo, companheiros da escola, da universidade, e até gente que só havia escutado falar dela, vieram para dizer-lhe um “até logo”.
No dia seguinte rezou-se a Missa na Basílica, estava cheia de gente já que coincidia com o dia 08 de maio - Dia de Nossa Senhora de Luján. Ninguém podia acreditar no que estava acontecendo, as pessoas que se encontravam ali perguntavam de quem se tratava, quem era a jovem por quem todos choravam. Só pude responder que não existiam palavras naquele momento, além de um canto a Maria que uma de sus amigas tocava no violão enquanto nos dirigíamos ao cemitério.

O Sacerdote ao descobri-la falou sobre ela como: uma pessoa simples que tinha pensado ir a África, dedicar sua vida ao serviço de Deus na missão. E uma frase de São Vicente: “a caridade é como um espelho, só produz caridade.” E nada melhor para descrever seu trabalho, sua vida. Hoje vem a nossa mente com as palavras que estavam escritas em seu santinho no dia do velório: Recordem-me feliz como foi minha vida. Vitória foi e continua sendo um exemplo de fortaleza e alegria, mas sobretudo seu amor a Deus continua sendo um exemplo para todos.


Nícolas Van Kleef, CM
“Quero ser sempre uma boa notícia”

“Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5,9)

Sua vida
Nícolas Johannes Van Kleef nasceu em Holanda, em 18 de abril de 1937.
Uma curiosidade pelos estudos e um imenso desejo de servir marcaram sua juventude. Tinha um tio sacerdote que era missionário em Guatemala, escrevia a seu tio para conhecer mais sobre a missão que desempenhava ali. Motivado por essa inquietação decide entrar ao seminário. Foi ordenado sacerdote em 19 de março de 1963 na comunidade dos Padres Vicentinos. Saiu de sua terra para trabalhar em terras Centro-Americanas.

Sua pessoalidade e sua juventude chamavam a atenção, em uma de suas primeiras colocações em janeiro de 1965, a visita do Pe. Nico despertou alegria na comunidade, especialmente nas crianças e nos jovens, pois por primeira vez um padre visitava a comunidade e ficava ali por oito dias.

Com pouco tempo de chegada à província de Veraguas sofre um acidente que o deixa prostrado em uma cadeira de rodas. Pela gravidade das feridas é transladado à Holanda, onde permaneceu muito tempo em um hospital, recebendo atenção médica especializada, que lhe ajudou a recuperar os movimentos dos braços e com sua inteligência pode seguir adiante, a ponto que dirigia seu próprio carro, o qual foi adaptado para ser manejado, por pessoa com deficiência física.

O fato de estar em cadeira de rodas não era um problema para o Pe. Nico, que fazia tudo que estivesse a seu alcance, celebrava todas suas missas, pregava a Palavra de Deus, aconselhava as pessoas que assim o pedisse, não era um homem que ficava “deitado” esperando que os outros o servissem, tudo o que ele podia fazer, ele o fazia já que não gostava que ninguém fizesse as coisas por ele.

Este tulipa holandês que viveu por 24 anos em Panamá, aprendeu a cultura local e partilhou com os panamenhos momentos bons e ruins, partindo sempre do levar a palavra de Deus a seus semelhantes. Assim mesmo, dava conselhos aos jovens e nunca era visto de mal humor apesar de estar em uma cadeira de roda. Pe. Nico, além do mais, foi um defensor e promotor da dignidade da mulher.
Sua morte
Em 07 de maio de 1989, aconteceram eleições presidenciais e legislativas no Panamá. Todo o país estava tenso e ansioso. O Governo Militar estava sendo liderado pelo General Manuel Antônio Noriega, que como um monstro ferido, lançava mordidas e garras até em sua própria sombra. Eram previsíveis uma contundente derrota eleitoral e uma eventual fraude.

Esse domingo, como de costume, o padre Nícolas Vam Kleef percorria as ruas do povoado de Santa Marta anunciando “em 15 minutos será a missa”. O convite à missa era tarefa quase rotineira do sacerdote e seus ajudantes paroquiais. E vale lembrar que um dia antes do ocorrido, outro padre tinha ido ao quartel onde obteve a autorização para chamar as pessoas ao templo.

Pe. Nico foi detido por um membro das forças de defensa, esse subiu no carro e se sentou detrás do padre, indicando-lhe que se dirigisse rumo ao posto da polícia local. O soldado discordava com o sacerdote sobre a rota que tomava para chegar ao quartel, carregou seu fuzil, tirou o dispositivo de segurança e o apontou ao padre. Há poucos metros do quartel disparou no lado direito da cara de seu alvo. Pe. Nico morreu no dia seguinte no hospital, depois de horas de agonia.
Sua ressurreição
Pe. Nico tinha uma especial atenção pelos jovens e crianças. Todo ano os jovens, paroquiano e os sacerdotes realizam uma caminhada saindo da Igreja da Imaculada Conceição em Bugaba até a comunidade de Santa Marta aproximadamente a 9,9km, onde jazem os restos mortais do Padre; que, com sua genuína forma de ser, cativou o coração de muitas pessoas, que viam nele um homem que honrava sua frase preferida “quero ser boa não uma má notícia”.

Sem dúvida alguma que Pe. Nico ainda continua presente no coração de cada um dos jovens de nossas paróquias e comunidades, que são chamados a construir a civilização do amor.