"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor." (Lc 4, 18-19)
Deus da vida e Senhor da história, nós vos louvamos pelos 200 anos da Congregação da Missão no Brasil. E vos agradecemos pelo amor providente com que acompanhastes aqueles que nos precederam na seara do Reino. Bendito sejais pela fecundidade do carisma vicentino semeado em nossa pátria e por seus frutos na evangelização dos pobres e na formação do clero e dos leigos.
Vós nos chamais a seguir vosso Filho Jesus Cristo, revestidos de seu espírito e empenhados na missão. Perdoai-nos as infidelidades que não nos deixam corresponder ao dom que recebemos. Despertai em nós crescente retidão de consciência e generosidade de coração para servir como convém aos menores dos irmãos, atentos aos apelos de cada momento.
Dinamizados por vosso Espírito, queremos ser constantes na oração e profundos no discernimento, inventivos na caridade e zelosos na missão, firmes no essencial e abertos ao novo, diligentes nas iniciativas e pacientes nas provações, sempre dispostos a amadurecer e frutificar, nutridos pela seiva do Evangelho e do carisma vicentino.
Pai Santo, aceitai nossa gratidão, encorajai nossa entrega e fortalecei nossa esperança, enquanto caminhamos para vós. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, que veio evangelizar os pobres, na unidade do Espírito Santo. Amém.
* * *
Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós.
mas
de qualquer lugar onde Deus aprouver que eu esteja".
(SVP
Coste IX, II)
No contexto da
vivência do Ano Jubilar que celebra os 200 anos da chegada dos Lazaristas no
Brasil, a Congregação da Missão e os demais ramos da Família Vicentina e seus
regionais Belo Horizonte e Rio de Janeiro realizaram as Santas Missões
Populares Vicentinas (SMPV), na Paróquia São Roque, Itaobim – MG, Diocese de
Araçuaí, de 18 a 31 de janeiro de 2020. Essa atividade é inspirada em Cristo e
é a ação mesma da Igreja, praticada por São Vicente de Paulo e desenvolvida,
também, em nosso país, com a chegada dos Padres Missionários Antônio Viçoso e
Pe. Leandro Castro, em 1819.
Os trabalhos deste
ano tiveram caráter de pós-missão, uma vez que no ano passado, as missões foram
realizadas também ali. Outras novidades desta edição foram: a renovação dos
livros de orações e de canto, entrega de lembrancinhas diversas aos
paroquianos, encontros formativos com comunidades e grupos pastorais diversos e
com temas específicos tendo como base o Plano Pastoral da Diocese.
Outra novidade foi
a utilização da nova logomarca das missões, cujo emblema e explicação
apresentamos a seguir:
Explicação da logomarca das SMPV
Cruz: Nossa missão não tem como foco o viés devocional,
mas a Cruz de Jesus, lugar especial onde é revelada o Amor de Deus. Não um Deus
ornado de poderes, mas de misericórdia; não um Deus complexo, mas simples; não
um Deus todo poderoso, mas que se faz fraco, manifestando assim sua opção
preferencial pelos fracos, pelos pobres, pelos humildes.
Palavra e Pão: Nossa missão, tendo com foco
essa Cruz de Jesus, é mantida, abastecida e sustentada pela eucaristia. A Palavra,
além de vicentinamente aludir ao primeiro Sermão da Missão pregado por São
Vicente de Paulo em Folleville, em 1617, é para nós a voz de Deus, mensagem que
nos guia, ensina e liberta.
O Pão,
também remete à caridade empregada por São Vicente e seus paroquianos junto àquela
família de Châtillon, em 1617, bem como, é para nós, pão da vida, pão dos
pobres, pão que nos reúne em torno de Cristo, dispensador da Graça Deus.
Caminho: O Caminho é Cristo Missionário, as Pegadas
somos nós, “Igreja em saída”. Em Cristo caminhamos. Cada passo mostra nosso
desejo de anunciá-lo como Verdade e Vida. (Jo 14,6). Esse anúncio, o fazemos
descalços, despojados de toda autossuficiência, mas munidos das virtudes
vicentinas (Humildade, Simplicidade, Mansidão, Mortificação e Zelo), virtudes
estas extraídas do Evangelho de Jesus.
Luz: Significa que, iluminados por Cristo, Sol da
Justiça, seremos capazes de discernir os sinais dos tempos, para responder com
generosidade, justiça e caridade a nossa vocação de discípulos/missionários, a
partir do carisma vicentino.
Por último, temos o
Letreiro: Santas Missões Populares
Vicentinas, com as cores missionárias e o versículo: “O Senhor me enviou para evangelizar os pobres” (Lc 4,18),
indicando que também nós queremos continuar a missão iniciada por Jesus.
Tudo nessa
ilustração aponta para Cristo, pois Ele é nosso ponto de partida e de chegada.
Assim nos lembrava São Vicente de Paulo: "vivemos
em Jesus Cristo pela morte em Jesus Cristo, e que temos de morrer em Jesus
Cristo pela vida de Jesus Cristo e que nossa vida tem que estar oculta em Jesus
Cristo e cheia de Jesus Cristo, e que para morrer como Jesus Cristo, tem que se
viver como Jesus Cristo”. (SVP, Coste I, 197).
Vale salientar que,
antes das atividades próprias dessa missão, os missionários tiveram formações
específicas durante seis meses, e já ali na paróquia anfitriã, com os
missionários locais, um momento de acolhida, apresentação, entrosamento e missa
de envio.
Nos dias seguintes,
organizados em equipes e já nas diferentes comunidades, missionários locais e
de fora, realizaram visitas domiciliares e formações que visavam orientar as
lideranças e o Povo de Deus em geral sobre Bíblia, Liturgia, Celebração da Palavra
e fortalecimento das pastorais e da instituição familiar. Além da comunidade
São Roque, onde se encontra a Igreja Matriz, outras comunidades foram
contempladas com as missões, a saber: Córrego Novo I e II, Vera Cruz, São
Domingos, Jatobá, São João, Flor de Minas, Santo Reis – Sabão, Brejo II, Beira
Rio, Inhaumas, São Lucas, União, Lagoa Grande, Santa Clara, Nossa Senhora
Aparecida, Nossa Senhora Paz, São José, Fonte Nova, Cilindro, Sapucaia,
Queimadão, Córrego de Areia, Esplanada, Sobrado, São Cristovão, Esperança
(Nossa Senhora Aparecida), Vila Nova (São Brás), Guadalupe, Vila São Roque,
Estação da Luz, Armando Ventura, Santo Antônio, Beira da Praia, Alta Vista I e
II, São Jorge, Pampulha, Baixada e Santa Helena.
A equipe de
missionários de fora esteve formada por: 68 missionários, dentre eles 07
padres, 01 diácono e 11 seminaristas da Congregação da Missão, 01 irmão da
Congregação dos Fráteres de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia, 06 irmãs e uma
postulante da Companhia das Filhas da Caridade, 02 irmãs da Congregação das
Irmãs Vicentinas de Gysegem e 40 leigos dos ramos: Sociedade de São Vicente de
Paulo, Associação da Medalha Milagrosa, Missionários Leigos Vicentinos e outros
amigos do Carisma, provenientes dos Estados de Minas Gerais, Paraná, Rio de
Janeiro, São Paulo e, excepcionalmente este ano, estiveram o padre Nárion
Mendonça, CM e seminarista Edvaldo Cordeiro, CM da Província de Fortaleza.
É natural que nas
SMPV, os missionários participem na condição de vida da comunidade e das
pessoas, e assim foi! A Paróquia esteve aberta e preparada para receber as
missões, os missionários foram bem acolhidos nas famílias anfitriãs, rezaram
com a comunidade local, todas as manhãs, e logo saíam em visita às famílias,
priorizado as mais pobres ou onde havia doentes, idosos, pessoas afastadas e
lideranças; também, realizaram atividades ligadas à área de formação e
celebração.
Além da missa de
acolhida e envio aos setores a serem missionados, durante as missões outras
atividades merecem destaque: avaliação e tarde de descanso, depois de uma
semana de atividades; avaliação final e celebração da penitência, e eucaristia
de encerramento e noite cultural, oportunidade onde se fez uma partilha de
alimentos entre todos, ali também foram colocados em comum os dotes e talentos
artísticos e culturais dos missionários e comunidades visitadas.
Deste modo,
rendemos o nosso agradecimento a todos os que tornaram possível a realização
dessas missões: à Província Brasileira da Congregação da Missão, às Filhas da
Caridade, os Missionários Leigos Vicentinos, à Associação dos Ex-Alunos dos
Lazaristas e Amigos do Caraça, à Paróquia Santa Catarina Labouré entre outros
amigos, e todos que fazem parte da Paróquia São Roque de Itaobim, na pessoa de
seu Pároco, Pe. Fernando Luiz dos Santos. Que Nossa Senhora da Medalha
Milagrosa e São Vicente de Paulo alcancem de Deus a graça que nos possibilite
continuar seguindo e servindo Jesus Cristo, evangelizador dos pobres!
Cleber Teodosio, CM
Michel Araújo, CM
Vídeo de agradecimento com imagens das SMPV Itaobim-MG 2020
Depois de palmilhar tantos caminhos, teu olhar se fixou para sempre no Senhor. Com ele, aprendeste a inclinar teu coração sobre o irmão ferido e abandonado.
Não cedeste à prepotência de quem se julga superior, muito menos à indiferença de quem finge não ver. Não passaste adiante, justificando tua pressa. Teu prestígio não obscureceu tua verdade, nem tuas conquistas te fizeram menos humano.
Naquela estrada, o Senhor te encontrou, inquieto, busca de sentido para o teu peregrinar. E, ali, tu encontraste o Senhor, na face machucada do teu próximo, na lágrima do que fora esquecido, na solidão do rejeitado.
Sem vacilar, entraste no movimento da Misericórdia, fazendo-te próximo dos caídos, dilatando teu coração compassivo, estendendo tuas mãos operosas, recobrindo a indigência com o manto da caridade.
Com delicadeza, criatividade e cuidado, derramaste sobre os feridos o bálsamo da misericórdia. Com firmeza lucidez e vigor, interpelaste os insensíveis e acomodados.
É que teu olhar já se fixara no pobre, o mesmo olhar que se fixara no Senhor, Ele que considera como feito a si o que se faz ao menor dos seus irmãos.
E, neste movimento, neste encontraste tanta gente: Maria, a Mãe de Misericórdia e do Sorriso; São José, o trabalhador de mãos calejadas; Luísa de Marillac, a irmã dos desamparados.
E bem que poderias ter encontrado tantos outros que trilharam os mesmos rumos no chão da nossa terra: Madre Paulina e Irmã Dulce, Dom Helder e Padre Alfredinho, Irmã Lindalva e Dom Luciano...
Faze ecoar em nossos ouvidos, Ó São Vicente Samaritano, o apelo de nosso Irmão Misericordioso: "Vai e faze a mesma coisa". E nós iremos... Na tua companhia.
Fonte: Desenho: Pe. Hugo Sosa, CM e Texto: Pe. Vinícius Teixeira, CM
Maria na experiência
espiritual de São Vicente de Paulo
Vicente de Paulo fixa sua atenção sobre três ícones, três mistérios que envolvem a vida de Maria e
explicitam sua missão: a Imaculada
Conceição, a Anunciação e a Visitação. A espiritualidade mariana de
Vicente de Paulo situa-se no núcleo de sua experiência espiritual: dar-se a
Deus para servir aos Pobres.
1.A Imaculada Conceição
São Vicente vê, no mistério da Imaculada Conceição, a Virgem humilde e
casta, vazia de si mesma para acolher a
Deus e deixar-se plenificar por ele. Atitudes fundamentais para os que
querem esvaziar-se de si mesmo e revestir-se do espírito de Cristo: “Previu Deus, pois, que, como era preciso
que seu Filho tomasse carne humana de uma mulher, era conveniente que a tomasse
de uma mulher digna de recebê-lo, uma mulher que estivesse cheia de graça,
vazia de pecado, enriquecida de piedade e preservada de todos os maus afetos.
Apresentou, então, diante de seus olhos todas as mulheres que havia no mundo e
não encontrou nenhuma tão digna desta grande obra como a puríssima e imaculada
Virgem Maria. Por isso, se propôs, desde toda a eternidade, preparar esta
morada, adorná-la com os mais admiráveis e dignos bens que pode receber uma
criatura, a fim de que fosse um templo digno da divindade, um palácio digno de
seu Filho. Se a previsão eterna pôs, desde então, seus olhos para descobrir
este receptáculo do seu Filho e, depois de descobri-lo, adornou-o com todas as
graças que podem embelezar uma criatura, como ele mesmo declarou pela boca do
anjo que lhe enviou como embaixador, com maior razão haveremos de prever o dia
e a disposição requerida para receber-lhe!” (SV XIII, 35).
► Acolher a Deus, encher-nos de Deus, revestir-nos de Jesus
Cristo, vazios de nós mesmo, como a Imaculada, tal é o primeiro desafio que
Vicente de Paulo nos propõe, à luz do exemplo da Virgem Maria.
2.A Anunciação
A humildade prepara e sustenta a oferta de si a Deus. Conhecer Deus e
reconhecê-lo como único Senhor, saber-se
pequeno diante dele, dar-se a ele para servir ao próximo, para realizar a sua
obra, é o segundo movimento que Vicente descobre em Maria, a partir do ícone da
Anunciação: “É preciso reconhecer a
essência e a existência de Deus e ter algum conhecimento de suas perfeições
antes de oferecer-lhe um sacrifício. Isso é natural, pois a quem ofereceis
vossos presentes? Aos grandes, aos príncipes e aos reis. A esses é que rendeis
vossa homenagem. Tão certo é isso que Deus observou esta mesma ordem na
encarnação. Quando o anjo foi saudar a Virgem Maria, começou por reconhecer que
estava cheia das graças do céu: Ave, gratia plena. Senhora, estás cheia e cumulada dos favores de Deus; Ave, gratia
plena. Assim a reconhece e louva-a como
cheia de graça. E o que faz em seguida? Aquele lindo presente da segunda pessoa
da Santíssima Trindade. O Espírito Santo, reunindo o sangue mais puro da
Santíssima Virgem, formou com ele um corpo; depois, Deus criou uma alma para
informar aquele corpo e, em seguida, o Verbo se uniu àquela alma e àquele corpo
por uma união admirável e, desta forma, o Espírito Santo realizou o mistério
inefável da encarnação. O louvor precedeu o sacrifício” (SV XII, 226-227).
► Como Maria na Anunciação, somos chamados a dar-nos inteiramente
a Deus para realizar a sua obra: “Assim,
pois, diz-se que é necessário buscar o Reino de Deus. Isso não é mais do que
uma palavra, mas parece-me que diz muitas coisas. Quer dizer que temos de
trabalhar de tal modo que aspiremos sempre ao que se nos recomenda, que
trabalhemos incessantemente pelo Reino de Deus, sem ficarmos numa situação
cômoda e parados (...). Buscai,
buscai, isto quer dizer preocupação, isto quer dizer ação” (SV XI,131). A adesão
de Maria à iniciativa de Deus serve-nos de estímulo na fidelidade ao dom da
vocação.
3.A Visitação
Vazios de nós mesmos e entregues a
Deus, nossa vida está a serviço dos
pobres: “vós vos destes a Deus para o
serviço dos pobres”, recordava, com insistência, nosso fundador. São Vicente descobre na Visitação de
Maria a Isabel este terceiro movimento do caminho espiritual e propõe a
prontidão e a solicitude de Maria na Visitação como modelo para o serviço dos
pobres: “Honrarão a visita da Santíssima
Virgem quando foi visitar sua prima com prontidão e alegria” (SV XIII,
419). E assim deduzirá as aplicações concretas para a vida da Filha da
Caridade: “A Companhia das Filhas da
Caridade foi fundada para amar a Deus, servi-lo e honrar Nosso Senhor, seu amo,
e à Santíssima Virgem. E como o honrareis? Vossa Regra vos indica, fazendo-as
reconhecer o plano de Deus em vossa fundação: para servir aos pobres enfermos,
corporalmente, administrando-lhes tudo o que lhes é necessário; e
espiritualmente, procurando que vivam e morram em bom estado” (SV IX, 20).
► Em toda e qualquer circunstância, São Vicente sempre nos
conduz aos pobres. Como Maria, nossa vida é doação total a Deus para o cuidado
e a promoção dos irmãos mais pobres.
Foi Deus quem nos chamou e quem, desde toda a eternidade, nos destinou
para ser missionários, não nos havendo feito nascer nem cem anos antes, nem cem
anos depois, mas precisamente no tempo da instituição desta obra. Por
conseguinte, não devemos buscar, nem esperar repouso, contentamento e bênçãos
em outro lugar a não ser na Missão, já que é lá que Deus nos quer,
assegurando-nos de que nossa vocação é boa e que não está fundada sobre o
interesse, nem sobre o desejo de evitar os desconfortos da vida, nem mesmo
sobre qualquer outro aspecto humano.
Nós somos os primeiros chamados. Diz-se que os primeiros de uma
congregação são aqueles que entram nela durante o primeiro século de sua
fundação, que é ordinariamente de cem anos. Visto que nós somos os primeiros
escolhidos para reconduzir ao redil as ovelhas extraviadas, se nós fugirmos, o
que será delas? Para onde pensamos fugir? Quo
ibo a spiritu tuo et quo a facie tua fugiam [Para onde irei, longe do teu
espírito; para onde fugirei, longe de tua face] (Sl 138, 7). Se um rei
tivesse escolhido alguns soldados entre os outros para dar os primeiros
assaltos, essa honra não seria para eles um poderoso motivo para fazê-los
desistir de fugir?
Nesta vocação, vivemos em conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo
que, ao vir ao mundo, escolheu como tarefa principal a de assistir os pobres e
ocupar-se do bem estar deles. Misit me
evangelizare pauperibus (Lc 4, 18). E se se pergunta a Nosso Senhor: “Que
viestes fazer na terra?” – “Assistir os pobres” – “Algo mais?” – “Assistir os
pobres”, etc. Ora, ele não tinha em sua companhia senão os pobres e pouco se
detinha nas cidades, conversando quase sempre com os camponeses e
instruindo-os. Assim, não nos sentimos felizes por estar na Missão pelo mesmo
fim que levou Deus a fazer-se homem? E, se pudéssemos interrogar um
missionário, não seria para ele uma grande honra poder dizer com Nosso Senhor: Misit me evangelizare pauperibus? É para
catequizar, instruir, confessar, assistir os pobres que estou aqui. Ora, o que
é que supõe esta conformidade com Nosso Senhor, senão a predestinação? Nam quos praescivit et praedestinavit
conformes fieri imaginis Filii sui [Aqueles que Deus antecipadamente conheceu,
também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho] (Rm 8, 9). Se
abandonamos nossa vocação, há motivo para recear que é a carne ou o diabo que
nos afasta dela. Nós vamos obedecer-lhes? Porquanto, visto que foi Deus quem
nos chamou, não será ele que nos afastará dessa vida. Deus não se contradiz.
Entretanto, não sabemos dos segredos de Deus e não queremos julgar ninguém, mas
sempre diremos que essa retirada é suspeita e duvidosa.
MEIOS:
1o É preciso pedir a Deus essa confirmação ou fortalecimento em nossa
vocação; trata-se de um dom de Deus.
2o É preciso ter grande estima por nossa vocação.
3o Guardar pontualmente todos os regulamentos da casa, pois, ainda que
sejam poucos, não há nenhum que não seja importante.
4o Não permitir que se fale nem contra os superiores, nem contra a maneira
de agir ou de administrar a casa.
5o Viver juntos em grande caridade e cordialidade.
Ele [Padre Vicente] acrescentou,
para consolar os Irmãos coadjutores em sua vocação, que eles levavam, assim
como os padres, uma vida conforme a de Nosso Senhor e que eles imitavam a vida
oculta de Jesus Cristo, durante a qual se ocupou com os exercícios corporais,
trabalhando na oficina de um carpinteiro e em casa como um criado; dessa forma,
eles [os Irmãos] imitavam uma vida de trinta anos, enquanto os padres, em suas
funções, não imitavam mais do que uma de três anos e meio; que eles honravam a
vida de servo de Nosso Senhor e os padres seu sacerdócio; e, desse modo, a
conformidade com Nosso Senhor se encontra numa e noutra vocação; quanto ao
restante, por causa da união que existe entre os membros de um mesmo corpo, o
que um membro faz é obra também dos demais. Por isso, os irmãos confessam com
os confessores, pregam com os pregadores, evangelizam os pobres com os padres da
Missão que os evangelizam, e, por conseguinte, estão nessa supradita
conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo.
Inspiração bíblica: Rm 8, 28-30; Sl 139 (138)
Para refletir:
1.São Vicente estava convicto
de que a vocação dos seus missionários era uma iniciativa amorosa de Deus.
Tenho permitido que essa convicção sirva de esteio para meu itinerário humano e
vocacional, encorajando-me frente aos desafios da missão?
2.Jesus Cristo é a fonte do
dinamismo do missionário vicentino. O que significa, para mim, a conformidade
com a sua pessoa e a participação em sua missão de evangelizador dos pobres, no
hoje concreto de nossa história?
3.Sinto-me verdadeiramente
inserido na vida da Congregação, a ponto de poder dizer que todos nós, na
pluralidade de dons, experiências e serviços, temos um ideal comum e tomamos
parte em uma mesma Missão?
Sim, meu caríssimo irmão, é
verdade, e não há por que duvidar, que sempre aprouve a Deus o fato de que vós
o amais, mas especialmente nesta hora. A fim de que o amássemos, ele nos fez à sua
imagem e semelhança, visto que não se ama, a não ser a quem lhe é semelhante,
senão em tudo, ao menos em algo. Esse grande Deus, ao criar-nos com o plano de
exigir de nós essa agradável ocupação de amá-lo e esse honroso tributo, quis
colocar em nós o germe do amor, que é a semelhança, a fim de que não nos
escusássemos, dizendo que não poderíamos retribuir-lhe jamais. Esse enamorado
de nossos corações, ao ver que, por desgraça, o pecado havia deteriorado e
manchado essa semelhança, quis romper todas as leis da natureza para reparar
esse dano, mas com a vantagem maravilhosa de que não se contentou em
devolver-nos a semelhança e a marca da sua divindade, mas quis, com o mesmo
propósito de que o amássemos, fazer-se semelhante a nós e revestir-se de nossa
própria humanidade. E quem vai querer, então, eximir-se de tão justa e salutar
obrigação?
Ademais, como o
amor é inventivo até o infinito, depois de haver subido ao patíbulo infame da
cruz, para conquistar as almas e os corações daqueles por quem deseja ser
amado, para não falar de outros inumeráveis estratagemas que utilizou para esse
fim, durante sua passagem entre nós, prevendo que sua ausência poderia causar
alguma dúvida ou esfriamento em nossos corações, quis se opor a esse
inconveniente, instituindo o augusto sacramento, onde se encontra real e
substancialmente como está no céu. Além disso, vendo que, rebaixando-se e
aniquilando-se ainda mais do que havia feito na encarnação, poderia fazer-se,
de algum modo, mais semelhante a nós ou, ao menos, fazer-nos mais semelhantes a
ele, fez que esse venerável sacramento nos servisse de alimento e de bebida,
pretendendo, por esse meio, que a mesma união e semelhança que se faz entre a
natureza e a substância se fizesse espiritualmente em cada um dos homens. Porque
o amor pode e quer tudo, ele assim o quis; e por receio de que os homens, não
entendendo bem este inaudito mistério e estratagema de amor, fossem negligentes
em aproximar-se deste sacramento, obrigou-os a ele sob pena de incorrer em sua
desgraça eterna: Nisi manducaveritis
carnem Filii hominis, non habebitis vitam [Quem não comer a carne do Filho do
Homem, não terá a vida] (Jo 6, 54).
Vede como ele se
esforçou, por todos os meios imagináveis, em conseguir que todos os homens o
amassem; e, para isso, deveis excitar vosso coração, para pagar este justo e
suave tributo ao amor de um Deus que foi o objeto de todos os seus desígnios
sobre vós e que, para obtê-lo, fez tudo o que fez por vós. Crede que o maior
presente que podeis oferecer-lhe é o vosso coração, e ele não vos pede nada
mais: Fili, praebe mihi cor tuum [Filho,
dai-me o teu coração (Prov 23, 26)].
Inspiração bíblica: 1Jo 4,
7-16; Sl 145(144).
Para refletir:
1)Tenho consciência de que,
ao receber o corpo e o sangue de Cristo Jesus, estou comungando de sua vida e
de sua missão?
2)A Eucaristia, memorial da
Páscoa de Jesus, faz de mim um homem capaz de viver a comunhão com todos, em
especial com os mais pobres?
3)A minha participação na
Eucaristia leva-me a redescobrir continuamente o amor infinitamente inventivo
do Senhor e a comunicá-lo no cotidiano de minha vida e na minha ação
missionária?
Havia três pontos: no primeiro, as
razões que temos para entregar-nos a Deus, para fazer, sempre e em todas as
coisas, sua santa vontade; no segundo, em que consiste tudo isso, e os atos; e
no terceiro ponto, os meios para adquirir essa prática de fazer, sempre e em
todas as coisas, a vontade de Deus.
Padre Vicente, depois de anunciar, dessa maneira, o
assunto da conferência, disse à Companhia:
Começarei falando primeiro e, em seguida, falarão alguns
outros da Companhia. As razões, senhores Padres, que temos para entregar-nos a
Deus e adquirir esta santa prática de fazer sua vontade, sempre e em todas as
coisas, são as seguintes: A primeira é tirada do Pai nosso, que todos os dias repetimos e que Nosso Senhor nos
ensinou: Fiat voluntas tua sicut in caelo
et in terra (Mt 6,10). Faça-se a vossa vontade assim na terra como no céu.
Nosso Senhor quer que, assim como os anjos e os bem-aventurados do céu fazem incessantemente
sua santa e adorável vontade, também a façamos nós, aqui na terra, de forma
semelhante e que a façamos com a maior perfeição possível, etc.
A segunda razão, senhores Padres, é que Nosso Senhor
deu-nos este exemplo, pois não veio à terra para outra coisa, a não ser para
fazer a vontade de Deus, seu Pai, levando a bom termo a obra de nossa redenção;
e nisto consistiam suas delícias, em fazer a vontade de Deus, seu Pai, etc.
Em que consiste fazer a vontade de Deus? Digo-vos que
devemos considerar a vontade de Deus, tanto no que diz respeito às coisas
ordenadas quanto nas coisas proibidas, como no que diz respeito às coisas que
não foram ordenadas nem proibidas e que são indiferentes ou aconselhadas.
Em relação à vontade de Deus, que nos manda fazer uma
coisa, manifestada por meio de sua lei, de seus mandamentos, dos mandamentos de
sua Igreja e daquilo que nos proíbe por meio dos mesmos mandamentos; pois há
preceitos que mandam fazer uma coisa e outros que nos proíbem fazer outra; e,
em ambos os casos, se cumpre a vontade de Deus, quando se faz o que ele ordena,
ou não se faz o que ele proíbe. Além disso, Deus quer, e tal é o seu
beneplácito, que se obedeça aos prelados da Igreja, aos reis, aos magistrados,
quando eles nos ordenam ou proíbem alguma coisa, às disposições do reino onde
alguém está, ao pai, à mãe, aos parentes e a seus superiores. Fazendo isso,
faz-se a vontade de Deus.
Quanto às ações indiferentes, que não são nem ordenadas,
nem proibidas, nem agradáveis, nem desagradáveis...Se são agradáveis, como
comer e beber, ou necessárias, Deus deseja que as façamos, por amor a ele e
porque ele o quis assim, prescindindo do prazer que aí sente a natureza. Se não
são necessárias, Deus deseja que nos privemos delas e nos mortifiquemos; se são
desagradáveis e mortificantes para a natureza, que as abracemos. Quem quiser vir após mim – diz Nosso
Senhor – que renuncie a si mesmo, tome a
sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Se não tem nada de agradável, nem de
desagradável, como estar de pé, andar por este caminho ou por outro, a vontade
de Deus é que tudo façamos por amor a ele. São Paulo disse: Sive manducatis,sive bibitis,sive aliud quid
facitis, omnia in gloriam Dei facite (1Cor 10,34).Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei
tudo para a maior glória de Deus. De modo que, se quisermos, podemos fazer
sempre a vontade de Deus. Oh! Que felicidade, que felicidade, senhores Padres,
fazer, sempre e em todas as coisas, a vontade de Deus! Não é isto que o Filho
de Deus veio fazer na terra, como já vos dissemos? O Filho de Deus veio para
evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18); e nós, padres, não fomos enviados para
fazer a mesma coisa? Sim, os missionários foram enviados para evangelizar os
pobres. Que felicidade fazer na terra o mesmo que fez Nosso Senhor, que é
ensinar o caminho do céu aos pobres!
Os meios para isso consistem em ter
o cuidado de direcionar a intenção, no começo de cada ação que fizermos,
dizendo a Deus: “Meu Deus, é por vosso amor que vou fazer isto; é por vosso
amor que vou deixar tal coisa para fazer essa outra”. Porque, vede, meus padres
e irmãos, a boa intenção que formulamos no começo de nossas ações é como a
forma. Verbi gratia, assim como para o batismo não basta molhar o menino, o que
constitui apenas a matéria, para que seja batizado, mas é preciso, além disso,
a intenção e as palavras, que são a forma; de outra maneira o menino ficaria
sem ser batizado. Do mesmo modo, a boa intenção que formulamos no começo de
nossas ações, que devem ser feitas por amor a ele [Deus], eleva-as [as ações]
até o trono da majestade de Deus e as faz merecedoras da vida eterna. Peçamos a
Deus que nos conceda essa graça de fazer, sempre em todas as coisas, sua santa
e adorável vontade e de adquirirmos essa prática. Queira Deus conceder-nos essa
graça!
Inspiração bíblica: Sl 143
(142); Mt 12, 46-50.
Para refletir:
1)Minhas escolhas pessoais, meu
estilo de vida e os esforços que empreendo são orientados por uma opção
fundamental por Deus e por um desejo sincero de fazer a sua vontade?
2)Estou convencido de que o
cumprimento da vontade de Deus plenifica minha existência, harmonizando meu
agir e meu falar, meu falar e meu pensar, meu pensar e meu ser?
3)Permito que a minha
consciência, os acontecimentos do cotidiano, a convivência com os outros, os
“sinais dos tempos” inspirem o discernimento da vontade de Deus em relação a
mim e à comunidade a que pertenço?
Quando vamos ver os pobres, devemosentrar em seus sentimentos para sofrer com eles e colocar-nos nas disposições daquele grande
apóstolo que dizia: Omnibus omnia factus
sum (1 Cor 9, 22), fiz-me tudo para todos; de forma que
não recaia sobre nós a queixa que fez outrora Nosso Senhor por um profeta: Sustinui qui simul mecum contristaretur, et
non fuit (Sl 68, 21), esperei para ver se alguém se compadecia de meus
sofrimentos, e não encontrei
ninguém. Para isso, é preciso empenhar-nos em enternecer
nossos corações e torná-los sensíveisaos sofrimentos emisérias do
próximo, pedindo a Deus que nos dê o verdadeiro espírito de misericórdia, que é
o espírito próprio de Deus; pois, como diz a Igreja, é próprio de Deus fazer
misericórdia e comunicar-nos
esse mesmo espírito. Peçamos, pois, a Deus, meus irmãos,
que nos dê este espírito de compaixão e de misericórdia, que nos encha dele,
que no-lo conserve, de forma que quem vir um missionário possa
dizer: “Eis aqui um homem cheio de misericórdia”. Pensemos um pouco na
necessidade que temos de misericórdia, nós que devemos exercitá-la para com os
demais e levar a misericórdia a todosos lugares, sofrendo tudo pela misericórdia.
Felizes nossos coirmãos
que estão na Polônia e que sofreram tanto durante estas últimas guerras e
durante a peste, e que ainda sofrem para exercitar a misericórdia corporal e espiritual e
para aliviar,
assistir e consolar os pobres! Felizes missionários, aos quais nem os
canhões, nem o fogo, nem as armas, nem a peste puderam fazer sair de
Varsóvia, onde os retinha a miséria dos outros; que perseveraram e ainda perseveram,
corajosamente, em meio a tantos perigos e sofrimentos, pela misericórdia! Oh! Como são
felizes por empregar tão bem este breve tempo de nossa vida na
misericórdia! Sim, este momento, porque nossa vida não é mais do que um
momento, que passa tão
depressa e logo desaparece. Ah! Meus setenta e seis anos de
vida não me parecem agora mais do que um sonho e um momento; e nada me resta deles, a não
ser o pesar por haver empregado tão mal esses instantes. Pensemos no
pesar que teremos, à hora de nossa morte, se não nos servirmos deste momento para fazer
misericórdia.
Sejamos, pois, misericordiosos,
meus irmãos, e exercitemos a misericórdia para com todos, de forma que nunca
encontremos um pobre sem consolá-lo, se o pudermos; nenhum homem
ignorante, sem ensinar-lhe, em poucas palavras, as coisas nas quais ele precisa crer e o que ele
precisa fazer para sua salvação. Oh Salvador, não
permitais que abusemos de nossa vocação, nem tireis desta companhia o espírito
de misericórdia.Que seria de nós, se nos retirásseis vossa misericórdia? Concedei-nos, pois, esse
espírito, junto com o espírito de mansidão e de humildade.
Inspiração
bíblica:Sl 84(83); Lc 10, 25-37.
Para refletir:
Na parábola do Samaritano, Jesus nos propõe o caminho da misericórdia:
ver, comover-se e agir. São Vicente nos convida a encarnar, em nossa ação
missionária, essa mesma atitude dinâmica.
1)Procuro VER a realidade dos
pobres e, ainda mais, o rosto concreto de cada um deles, tal como se
apresentam, ou limito-me a um olhar superficial, tendencioso e generalizante,
incapaz de chegar às raízes dos dramas individuais e coletivos?
2)Quando sou capaz de
COMOVER-ME, deixo o sofrimento alheio “remexer as entranhas do meu coração”,
sinto, de fato, a dor do outro que está caído à beira do caminho, ou
simplesmente sou tomado por um sentimentalismo estéril?
3)O olhar atento, que vai às raízes mais profundas, e o coração que se
debruça sobre a miséria do outro me impelem a uma AÇÃO, entedida também como cuidado, para “fazer justiça ao oprimido”, tornando-o
protagonista de sua própria história?