domingo, 15 de março de 2020

Oração e hino dos 200 anos da chegada dos Lazaristas no Brasil


1.ORAÇÃO

Deus da vida e Senhor da história, nós vos louvamos pelos 200 anos da Congregação da Missão no Brasil. E vos agradecemos pelo amor providente com que acompanhastes aqueles que nos precederam na seara do Reino. Bendito sejais pela fecundidade do carisma vicentino semeado em nossa pátria e por seus frutos na evangelização dos pobres e na formação do  clero e dos leigos. 

Vós nos chamais a seguir vosso Filho Jesus Cristo, revestidos de seu espírito e empenhados na missão. Perdoai-nos as infidelidades que não nos deixam corresponder ao dom que recebemos. Despertai em nós crescente retidão de consciência e generosidade de coração para servir como convém aos menores dos irmãos, atentos aos apelos de cada momento. 

Dinamizados por vosso Espírito, queremos ser constantes na oração e profundos no discernimento, inventivos na caridade e zelosos na missão, firmes no essencial e abertos ao novo, diligentes nas iniciativas e pacientes nas provações, sempre dispostos a amadurecer e frutificar, nutridos pela seiva do Evangelho e do carisma vicentino. 

Pai Santo, aceitai nossa gratidão, encorajai nossa entrega e fortalecei nossa esperança, enquanto caminhamos para vós. Por Jesus Cristo, Nosso Senhor, que veio evangelizar os pobres, na unidade do Espírito Santo. Amém. 

* * * 

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós. 
São Vicente de Paulo, rogai por nós.


2.HINO: "História de Virtude"

Por inúmeros caminhos de um país
Uma história de virtude eu vi nascer
Leandro e Viçoso
Começaram as missões
Ensinando a palavra
Abrasando corações

A missão é um estado de amor
Evangelizar com palavras e obras
O carisma vicentino
Se faz presente em nós
Nos enche de alegria e embala nossa voz

Pra falar de Deus, falar de Deus
De sua bondade, sua bondade
Ajudar os pobres, ajudar os pobres
Com a caridade

200 anos zelosos na missão
Lazarista pelo Brasil
Louvado seja São Vicente
Seu carisma nos uniu

Nas Santas Missões Populares,
Levando o evangelho a todos os lares
Em Jenipapo, Campo Grande ou Itaobim
A missão é recebida com o “sim”

Na formação do clero é tradição
Na serra do Caraça, exemplo pra educação
Irmãos, leigos, padres e seminaristas
Celebram um legado de conquistas

Pra falar de Deus, falar de Deus
De sua bondade, sua bondade
Ajudar os pobres, ajudar os pobres
Com a caridade

200 anos zelosos na missão
Lazarista pelo Brasil
Louvado seja São Vicente
Seu carisma nos uniu

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

SANTAS MISSÕES POPULARES VICENTINAS. ITAOBIM – MG 2020



“Não sou daqui, nem dali,
mas de qualquer lugar onde Deus aprouver que eu esteja".
(SVP Coste IX, II)

No contexto da vivência do Ano Jubilar que celebra os 200 anos da chegada dos Lazaristas no Brasil, a Congregação da Missão e os demais ramos da Família Vicentina e seus regionais Belo Horizonte e Rio de Janeiro realizaram as Santas Missões Populares Vicentinas (SMPV), na Paróquia São Roque, Itaobim – MG, Diocese de Araçuaí, de 18 a 31 de janeiro de 2020. Essa atividade é inspirada em Cristo e é a ação mesma da Igreja, praticada por São Vicente de Paulo e desenvolvida, também, em nosso país, com a chegada dos Padres Missionários Antônio Viçoso e Pe. Leandro Castro, em 1819.

Os trabalhos deste ano tiveram caráter de pós-missão, uma vez que no ano passado, as missões foram realizadas também ali. Outras novidades desta edição foram: a renovação dos livros de orações e de canto, entrega de lembrancinhas diversas aos paroquianos, encontros formativos com comunidades e grupos pastorais diversos e com temas específicos tendo como base o Plano Pastoral da Diocese.

Outra novidade foi a utilização da nova logomarca das missões, cujo emblema e explicação apresentamos a seguir:    



Explicação da logomarca das SMPV

Cruz: Nossa missão não tem como foco o viés devocional, mas a Cruz de Jesus, lugar especial onde é revelada o Amor de Deus. Não um Deus ornado de poderes, mas de misericórdia; não um Deus complexo, mas simples; não um Deus todo poderoso, mas que se faz fraco, manifestando assim sua opção preferencial pelos fracos, pelos pobres, pelos humildes.

Palavra e Pão: Nossa missão, tendo com foco essa Cruz de Jesus, é mantida, abastecida e sustentada pela eucaristia. A Palavra, além de vicentinamente aludir ao primeiro Sermão da Missão pregado por São Vicente de Paulo em Folleville, em 1617, é para nós a voz de Deus, mensagem que nos guia, ensina e liberta.
O Pão, também remete à caridade empregada por São Vicente e seus paroquianos junto àquela família de Châtillon, em 1617, bem como, é para nós, pão da vida, pão dos pobres, pão que nos reúne em torno de Cristo, dispensador da Graça Deus.

Caminho: O Caminho é Cristo Missionário, as Pegadas somos nós, “Igreja em saída”. Em Cristo caminhamos. Cada passo mostra nosso desejo de anunciá-lo como Verdade e Vida. (Jo 14,6). Esse anúncio, o fazemos descalços, despojados de toda autossuficiência, mas munidos das virtudes vicentinas (Humildade, Simplicidade, Mansidão, Mortificação e Zelo), virtudes estas extraídas do Evangelho de Jesus.

Luz: Significa que, iluminados por Cristo, Sol da Justiça, seremos capazes de discernir os sinais dos tempos, para responder com generosidade, justiça e caridade a nossa vocação de discípulos/missionários, a partir do carisma vicentino.

Por último, temos o Letreiro: Santas Missões Populares Vicentinas, com as cores missionárias e o versículo: “O Senhor me enviou para evangelizar os pobres” (Lc 4,18), indicando que também nós queremos continuar a missão iniciada por Jesus.

Tudo nessa ilustração aponta para Cristo, pois Ele é nosso ponto de partida e de chegada. Assim nos lembrava São Vicente de Paulo: "vivemos em Jesus Cristo pela morte em Jesus Cristo, e que temos de morrer em Jesus Cristo pela vida de Jesus Cristo e que nossa vida tem que estar oculta em Jesus Cristo e cheia de Jesus Cristo, e que para morrer como Jesus Cristo, tem que se viver como Jesus Cristo”. (SVP, Coste I, 197).

Vale salientar que, antes das atividades próprias dessa missão, os missionários tiveram formações específicas durante seis meses, e já ali na paróquia anfitriã, com os missionários locais, um momento de acolhida, apresentação, entrosamento e missa de envio.

Nos dias seguintes, organizados em equipes e já nas diferentes comunidades, missionários locais e de fora, realizaram visitas domiciliares e formações que visavam orientar as lideranças e o Povo de Deus em geral sobre Bíblia, Liturgia, Celebração da Palavra e fortalecimento das pastorais e da instituição familiar. Além da comunidade São Roque, onde se encontra a Igreja Matriz, outras comunidades foram contempladas com as missões, a saber: Córrego Novo I e II, Vera Cruz, São Domingos, Jatobá, São João, Flor de Minas, Santo Reis – Sabão, Brejo II, Beira Rio, Inhaumas, São Lucas, União, Lagoa Grande, Santa Clara, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora Paz, São José, Fonte Nova, Cilindro, Sapucaia, Queimadão, Córrego de Areia, Esplanada, Sobrado, São Cristovão, Esperança (Nossa Senhora Aparecida), Vila Nova (São Brás), Guadalupe, Vila São Roque, Estação da Luz, Armando Ventura, Santo Antônio, Beira da Praia, Alta Vista I e II, São Jorge, Pampulha, Baixada e Santa Helena.

A equipe de missionários de fora esteve formada por: 68 missionários, dentre eles 07 padres, 01 diácono e 11 seminaristas da Congregação da Missão, 01 irmão da Congregação dos Fráteres de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia, 06 irmãs e uma postulante da Companhia das Filhas da Caridade, 02 irmãs da Congregação das Irmãs Vicentinas de Gysegem e 40 leigos dos ramos: Sociedade de São Vicente de Paulo, Associação da Medalha Milagrosa, Missionários Leigos Vicentinos e outros amigos do Carisma, provenientes dos Estados de Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo e, excepcionalmente este ano, estiveram o padre Nárion Mendonça, CM e seminarista Edvaldo Cordeiro, CM da Província de Fortaleza.

É natural que nas SMPV, os missionários participem na condição de vida da comunidade e das pessoas, e assim foi! A Paróquia esteve aberta e preparada para receber as missões, os missionários foram bem acolhidos nas famílias anfitriãs, rezaram com a comunidade local, todas as manhãs, e logo saíam em visita às famílias, priorizado as mais pobres ou onde havia doentes, idosos, pessoas afastadas e lideranças; também, realizaram atividades ligadas à área de formação e celebração.

Além da missa de acolhida e envio aos setores a serem missionados, durante as missões outras atividades merecem destaque: avaliação e tarde de descanso, depois de uma semana de atividades; avaliação final e celebração da penitência, e eucaristia de encerramento e noite cultural, oportunidade onde se fez uma partilha de alimentos entre todos, ali também foram colocados em comum os dotes e talentos artísticos e culturais dos missionários e comunidades visitadas.

Deste modo, rendemos o nosso agradecimento a todos os que tornaram possível a realização dessas missões: à Província Brasileira da Congregação da Missão, às Filhas da Caridade, os Missionários Leigos Vicentinos, à Associação dos Ex-Alunos dos Lazaristas e Amigos do Caraça, à Paróquia Santa Catarina Labouré entre outros amigos, e todos que fazem parte da Paróquia São Roque de Itaobim, na pessoa de seu Pároco, Pe. Fernando Luiz dos Santos. Que Nossa Senhora da Medalha Milagrosa e São Vicente de Paulo alcancem de Deus a graça que nos possibilite continuar seguindo e servindo Jesus Cristo, evangelizador dos pobres!


Cleber Teodosio, CM
Michel Araújo, CM


Vídeo de agradecimento com imagens das SMPV Itaobim-MG 2020

domingo, 14 de julho de 2019

São Vicente Samaritano



Depois de palmilhar tantos caminhos, teu olhar se fixou para sempre no Senhor. Com ele, aprendeste a inclinar teu coração sobre o irmão ferido e abandonado.

Não cedeste à prepotência de quem se julga superior, muito menos à indiferença de quem finge não ver. Não passaste adiante, justificando tua pressa. Teu prestígio não obscureceu tua verdade, nem tuas conquistas te fizeram menos humano. 

Naquela estrada, o Senhor te encontrou, inquieto, busca de sentido para o teu peregrinar. E, ali, tu encontraste o Senhor, na face machucada do teu próximo, na lágrima do que fora esquecido, na solidão do rejeitado. 

Sem vacilar, entraste no movimento da Misericórdia, fazendo-te próximo dos caídos, dilatando teu coração compassivo, estendendo tuas mãos operosas, recobrindo a indigência com o manto da caridade.

Com delicadeza, criatividade e cuidado, derramaste sobre os feridos o bálsamo da misericórdia. Com firmeza lucidez e vigor, interpelaste os insensíveis e acomodados. 

É que teu olhar já se fixara no pobre, o mesmo olhar que se fixara no Senhor, Ele que considera como feito a si o que se faz ao menor dos seus irmãos.

E, neste movimento, neste encontraste tanta gente: Maria, a Mãe de Misericórdia e do Sorriso; São José, o trabalhador de mãos calejadas; Luísa de Marillac, a irmã dos desamparados.

E bem que poderias ter encontrado tantos outros que trilharam os mesmos rumos no chão da nossa terra: Madre Paulina e Irmã Dulce, Dom Helder e Padre Alfredinho, Irmã Lindalva e Dom Luciano... 

Faze ecoar em nossos ouvidos, Ó São Vicente Samaritano, o apelo de nosso Irmão Misericordioso: "Vai e faze a mesma coisa". E nós iremos... Na tua companhia.

Fonte: Desenho: Pe. Hugo Sosa, CM e Texto: Pe. Vinícius Teixeira, CM

sábado, 6 de julho de 2019

Lectio Vicentina: Maria



Maria na experiência espiritual de São Vicente de Paulo

Vicente de Paulo fixa sua atenção sobre três ícones, três mistérios que envolvem a vida de Maria e explicitam sua missão: a Imaculada Conceição, a Anunciação e a Visitação. A espiritualidade mariana de Vicente de Paulo situa-se no núcleo de sua experiência espiritual: dar-se a Deus para servir aos Pobres.

1.       A Imaculada Conceição
São Vicente vê, no mistério da Imaculada Conceição, a Virgem humilde e casta, vazia de si mesma para acolher a Deus e deixar-se plenificar por ele. Atitudes fundamentais para os que querem esvaziar-se de si mesmo e revestir-se do espírito de Cristo: “Previu Deus, pois, que, como era preciso que seu Filho tomasse carne humana de uma mulher, era conveniente que a tomasse de uma mulher digna de recebê-lo, uma mulher que estivesse cheia de graça, vazia de pecado, enriquecida de piedade e preservada de todos os maus afetos. Apresentou, então, diante de seus olhos todas as mulheres que havia no mundo e não encontrou nenhuma tão digna desta grande obra como a puríssima e imaculada Virgem Maria. Por isso, se propôs, desde toda a eternidade, preparar esta morada, adorná-la com os mais admiráveis e dignos bens que pode receber uma criatura, a fim de que fosse um templo digno da divindade, um palácio digno de seu Filho. Se a previsão eterna pôs, desde então, seus olhos para descobrir este receptáculo do seu Filho e, depois de descobri-lo, adornou-o com todas as graças que podem embelezar uma criatura, como ele mesmo declarou pela boca do anjo que lhe enviou como embaixador, com maior razão haveremos de prever o dia e a disposição requerida para receber-lhe!” (SV XIII, 35).

Acolher a Deus, encher-nos de Deus, revestir-nos de Jesus Cristo, vazios de nós mesmo, como a Imaculada, tal é o primeiro desafio que Vicente de Paulo nos propõe, à luz do exemplo da Virgem Maria. 

2.       A Anunciação
A humildade prepara e sustenta a oferta de si a Deus. Conhecer Deus e reconhecê-lo como único Senhor, saber-se pequeno diante dele, dar-se a ele para servir ao próximo, para realizar a sua obra, é o segundo movimento que Vicente descobre em Maria, a partir do ícone da Anunciação: “É preciso reconhecer a essência e a existência de Deus e ter algum conhecimento de suas perfeições antes de oferecer-lhe um sacrifício. Isso é natural, pois a quem ofereceis vossos presentes? Aos grandes, aos príncipes e aos reis. A esses é que rendeis vossa homenagem. Tão certo é isso que Deus observou esta mesma ordem na encarnação. Quando o anjo foi saudar a Virgem Maria, começou por reconhecer que estava cheia das graças do céu: Ave, gratia plena. Senhora, estás cheia e cumulada dos favores de Deus; Ave, gratia plena. Assim a reconhece e louva-a como cheia de graça. E o que faz em seguida? Aquele lindo presente da segunda pessoa da Santíssima Trindade. O Espírito Santo, reunindo o sangue mais puro da Santíssima Virgem, formou com ele um corpo; depois, Deus criou uma alma para informar aquele corpo e, em seguida, o Verbo se uniu àquela alma e àquele corpo por uma união admirável e, desta forma, o Espírito Santo realizou o mistério inefável da encarnação. O louvor precedeu o sacrifício” (SV XII, 226-227).

Como Maria na Anunciação, somos chamados a dar-nos inteiramente a Deus para realizar a sua obra: “Assim, pois, diz-se que é necessário buscar o Reino de Deus. Isso não é mais do que uma palavra, mas parece-me que diz muitas coisas. Quer dizer que temos de trabalhar de tal modo que aspiremos sempre ao que se nos recomenda, que trabalhemos incessantemente pelo Reino de Deus, sem ficarmos numa situação cômoda e parados (...). Buscai, buscai, isto quer dizer preocupação, isto quer dizer ação” (SV XI,131). A adesão de Maria à iniciativa de Deus serve-nos de estímulo na fidelidade ao dom da vocação.
           
3.       A Visitação
Vazios de nós mesmos e entregues a Deus, nossa vida está a serviço dos pobres: “vós vos destes a Deus para o serviço dos pobres”, recordava, com insistência, nosso fundador. São Vicente descobre na Visitação de Maria a Isabel este terceiro movimento do caminho espiritual e propõe a prontidão e a solicitude de Maria na Visitação como modelo para o serviço dos pobres: “Honrarão a visita da Santíssima Virgem quando foi visitar sua prima com prontidão e alegria” (SV XIII, 419). E assim deduzirá as aplicações concretas para a vida da Filha da Caridade: “A Companhia das Filhas da Caridade foi fundada para amar a Deus, servi-lo e honrar Nosso Senhor, seu amo, e à Santíssima Virgem. E como o honrareis? Vossa Regra vos indica, fazendo-as reconhecer o plano de Deus em vossa fundação: para servir aos pobres enfermos, corporalmente, administrando-lhes tudo o que lhes é necessário; e espiritualmente, procurando que vivam e morram em bom estado” (SV IX, 20).

Em toda e qualquer circunstância, São Vicente sempre nos conduz aos pobres. Como Maria, nossa vida é doação total a Deus para o cuidado e a promoção dos irmãos mais pobres.


INSPIRAÇÃO BÍBLICA: Lc 1,26-38 (Anunciação)
   Lc 1,39-56 (Visitação)


Lectio Vicentina: Perseverança na vocação



Conferência de 29 de outubro de 1638[1]

Foi Deus quem nos chamou e quem, desde toda a eternidade, nos destinou para ser missionários, não nos havendo feito nascer nem cem anos antes, nem cem anos depois, mas precisamente no tempo da instituição desta obra. Por conseguinte, não devemos buscar, nem esperar repouso, contentamento e bênçãos em outro lugar a não ser na Missão, já que é lá que Deus nos quer, assegurando-nos de que nossa vocação é boa e que não está fundada sobre o interesse, nem sobre o desejo de evitar os desconfortos da vida, nem mesmo sobre qualquer outro aspecto humano.

Nós somos os primeiros chamados. Diz-se que os primeiros de uma congregação são aqueles que entram nela durante o primeiro século de sua fundação, que é ordinariamente de cem anos. Visto que nós somos os primeiros escolhidos para reconduzir ao redil as ovelhas extraviadas, se nós fugirmos, o que será delas? Para onde pensamos fugir? Quo ibo a spiritu tuo et quo a facie tua fugiam [Para onde irei, longe do teu espírito; para onde fugirei, longe de tua face] (Sl 138, 7). Se um rei tivesse escolhido alguns soldados entre os outros para dar os primeiros assaltos, essa honra não seria para eles um poderoso motivo para fazê-los desistir de fugir?

Nesta vocação, vivemos em conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo que, ao vir ao mundo, escolheu como tarefa principal a de assistir os pobres e ocupar-se do bem estar deles. Misit me evangelizare pauperibus (Lc 4, 18). E se se pergunta a Nosso Senhor: “Que viestes fazer na terra?” – “Assistir os pobres” – “Algo mais?” – “Assistir os pobres”, etc. Ora, ele não tinha em sua companhia senão os pobres e pouco se detinha nas cidades, conversando quase sempre com os camponeses e instruindo-os. Assim, não nos sentimos felizes por estar na Missão pelo mesmo fim que levou Deus a fazer-se homem? E, se pudéssemos interrogar um missionário, não seria para ele uma grande honra poder dizer com Nosso Senhor: Misit me evangelizare pauperibus? É para catequizar, instruir, confessar, assistir os pobres que estou aqui. Ora, o que é que supõe esta conformidade com Nosso Senhor, senão a predestinação? Nam quos praescivit et praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui [Aqueles que Deus antecipadamente conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho] (Rm 8, 9). Se abandonamos nossa vocação, há motivo para recear que é a carne ou o diabo que nos afasta dela. Nós vamos obedecer-lhes? Porquanto, visto que foi Deus quem nos chamou, não será ele que nos afastará dessa vida. Deus não se contradiz. Entretanto, não sabemos dos segredos de Deus e não queremos julgar ninguém, mas sempre diremos que essa retirada é suspeita e duvidosa.

MEIOS:
1o É preciso pedir a Deus essa confirmação ou fortalecimento em nossa vocação; trata-se de um dom de Deus. 
2o É preciso ter grande estima por nossa vocação.
3o Guardar pontualmente todos os regulamentos da casa, pois, ainda que sejam poucos, não há nenhum que não seja importante.
4o Não permitir que se fale nem contra os superiores, nem contra a maneira de agir ou de administrar a casa.
5o Viver juntos em grande caridade e cordialidade.

            Ele [Padre Vicente] acrescentou, para consolar os Irmãos coadjutores em sua vocação, que eles levavam, assim como os padres, uma vida conforme a de Nosso Senhor e que eles imitavam a vida oculta de Jesus Cristo, durante a qual se ocupou com os exercícios corporais, trabalhando na oficina de um carpinteiro e em casa como um criado; dessa forma, eles [os Irmãos] imitavam uma vida de trinta anos, enquanto os padres, em suas funções, não imitavam mais do que uma de três anos e meio; que eles honravam a vida de servo de Nosso Senhor e os padres seu sacerdócio; e, desse modo, a conformidade com Nosso Senhor se encontra numa e noutra vocação; quanto ao restante, por causa da união que existe entre os membros de um mesmo corpo, o que um membro faz é obra também dos demais. Por isso, os irmãos confessam com os confessores, pregam com os pregadores, evangelizam os pobres com os padres da Missão que os evangelizam, e, por conseguinte, estão nessa supradita conformidade com Nosso Senhor Jesus Cristo.  

Inspiração bíblica: Rm 8, 28-30; Sl 139 (138)

Para refletir:
1.        São Vicente estava convicto de que a vocação dos seus missionários era uma iniciativa amorosa de Deus. Tenho permitido que essa convicção sirva de esteio para meu itinerário humano e vocacional, encorajando-me frente aos desafios da missão? 
2.        Jesus Cristo é a fonte do dinamismo do missionário vicentino. O que significa, para mim, a conformidade com a sua pessoa e a participação em sua missão de evangelizador dos pobres, no hoje concreto de nossa história? 
3.        Sinto-me verdadeiramente inserido na vida da Congregação, a ponto de poder dizer que todos nós, na pluralidade de dons, experiências e serviços, temos um ideal comum e tomamos parte em uma mesma Missão?





[1] SV XI, 107-109.

Lectio Vicentina: Exortação a um irmão moribundo



Exortação a um irmão moribundo 1645[1]

Sim, meu caríssimo irmão, é verdade, e não há por que duvidar, que sempre aprouve a Deus o fato de que vós o amais, mas especialmente nesta hora. A fim de que o amássemos, ele nos fez à sua imagem e semelhança, visto que não se ama, a não ser a quem lhe é semelhante, senão em tudo, ao menos em algo. Esse grande Deus, ao criar-nos com o plano de exigir de nós essa agradável ocupação de amá-lo e esse honroso tributo, quis colocar em nós o germe do amor, que é a semelhança, a fim de que não nos escusássemos, dizendo que não poderíamos retribuir-lhe jamais. Esse enamorado de nossos corações, ao ver que, por desgraça, o pecado havia deteriorado e manchado essa semelhança, quis romper todas as leis da natureza para reparar esse dano, mas com a vantagem maravilhosa de que não se contentou em devolver-nos a semelhança e a marca da sua divindade, mas quis, com o mesmo propósito de que o amássemos, fazer-se semelhante a nós e revestir-se de nossa própria humanidade. E quem vai querer, então, eximir-se de tão justa e salutar obrigação?

Ademais, como o amor é inventivo até o infinito, depois de haver subido ao patíbulo infame da cruz, para conquistar as almas e os corações daqueles por quem deseja ser amado, para não falar de outros inumeráveis estratagemas que utilizou para esse fim, durante sua passagem entre nós, prevendo que sua ausência poderia causar alguma dúvida ou esfriamento em nossos corações, quis se opor a esse inconveniente, instituindo o augusto sacramento, onde se encontra real e substancialmente como está no céu. Além disso, vendo que, rebaixando-se e aniquilando-se ainda mais do que havia feito na encarnação, poderia fazer-se, de algum modo, mais semelhante a nós ou, ao menos, fazer-nos mais semelhantes a ele, fez que esse venerável sacramento nos servisse de alimento e de bebida, pretendendo, por esse meio, que a mesma união e semelhança que se faz entre a natureza e a substância se fizesse espiritualmente em cada um dos homens. Porque o amor pode e quer tudo, ele assim o quis; e por receio de que os homens, não entendendo bem este inaudito mistério e estratagema de amor, fossem negligentes em aproximar-se deste sacramento, obrigou-os a ele sob pena de incorrer em sua desgraça eterna: Nisi manducaveritis carnem Filii hominis, non habebitis vitam [Quem não comer a carne do Filho do Homem, não terá a vida] (Jo 6, 54). 

Vede como ele se esforçou, por todos os meios imagináveis, em conseguir que todos os homens o amassem; e, para isso, deveis excitar vosso coração, para pagar este justo e suave tributo ao amor de um Deus que foi o objeto de todos os seus desígnios sobre vós e que, para obtê-lo, fez tudo o que fez por vós. Crede que o maior presente que podeis oferecer-lhe é o vosso coração, e ele não vos pede nada mais: Fili, praebe mihi cor tuum [Filho, dai-me o teu coração (Prov 23, 26)].

Inspiração bíblica: 1Jo 4, 7-16; Sl 145(144).

Para refletir:
1)       Tenho consciência de que, ao receber o corpo e o sangue de Cristo Jesus, estou comungando de sua vida e de sua missão?
2)       A Eucaristia, memorial da Páscoa de Jesus, faz de mim um homem capaz de viver a comunhão com todos, em especial com os mais pobres?
3)       A minha participação na Eucaristia leva-me a redescobrir continuamente o amor infinitamente inventivo do Senhor e a comunicá-lo no cotidiano de minha vida e na minha ação missionária? 



[1] SV XI, 145-147.

Lectio Divina: a Vontade de Deus



Conferência de 15 de outubro de 1655[1]

            Havia três pontos: no primeiro, as razões que temos para entregar-nos a Deus, para fazer, sempre e em todas as coisas, sua santa vontade; no segundo, em que consiste tudo isso, e os atos; e no terceiro ponto, os meios para adquirir essa prática de fazer, sempre e em todas as coisas, a vontade de Deus.

            Padre Vicente, depois de anunciar, dessa maneira, o assunto da conferência, disse à Companhia:

            Começarei falando primeiro e, em seguida, falarão alguns outros da Companhia. As razões, senhores Padres, que temos para entregar-nos a Deus e adquirir esta santa prática de fazer sua vontade, sempre e em todas as coisas, são as seguintes: A primeira é tirada do Pai nosso, que todos os dias repetimos e que Nosso Senhor nos ensinou: Fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra (Mt 6,10). Faça-se a vossa vontade assim na terra como no céu. Nosso Senhor quer que, assim como os anjos e os bem-aventurados do céu fazem incessantemente sua santa e adorável vontade, também a façamos nós, aqui na terra, de forma semelhante e que a façamos com a maior perfeição possível, etc.

            A segunda razão, senhores Padres, é que Nosso Senhor deu-nos este exemplo, pois não veio à terra para outra coisa, a não ser para fazer a vontade de Deus, seu Pai, levando a bom termo a obra de nossa redenção; e nisto consistiam suas delícias, em fazer a vontade de Deus, seu Pai, etc.

            Em que consiste fazer a vontade de Deus? Digo-vos que devemos considerar a vontade de Deus, tanto no que diz respeito às coisas ordenadas quanto nas coisas proibidas, como no que diz respeito às coisas que não foram ordenadas nem proibidas e que são indiferentes ou aconselhadas.

            Em relação à vontade de Deus, que nos manda fazer uma coisa, manifestada por meio de sua lei, de seus mandamentos, dos mandamentos de sua Igreja e daquilo que nos proíbe por meio dos mesmos mandamentos; pois há preceitos que mandam fazer uma coisa e outros que nos proíbem fazer outra; e, em ambos os casos, se cumpre a vontade de Deus, quando se faz o que ele ordena, ou não se faz o que ele proíbe. Além disso, Deus quer, e tal é o seu beneplácito, que se obedeça aos prelados da Igreja, aos reis, aos magistrados, quando eles nos ordenam ou proíbem alguma coisa, às disposições do reino onde alguém está, ao pai, à mãe, aos parentes e a seus superiores. Fazendo isso, faz-se a vontade de Deus.

            Quanto às ações indiferentes, que não são nem ordenadas, nem proibidas, nem agradáveis, nem desagradáveis...Se são agradáveis, como comer e beber, ou necessárias, Deus deseja que as façamos, por amor a ele e porque ele o quis assim, prescindindo do prazer que aí sente a natureza. Se não são necessárias, Deus deseja que nos privemos delas e nos mortifiquemos; se são desagradáveis e mortificantes para a natureza, que as abracemos. Quem quiser vir após mim – diz Nosso Senhor – que renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24). Se não tem nada de agradável, nem de desagradável, como estar de pé, andar por este caminho ou por outro, a vontade de Deus é que tudo façamos por amor a ele. São Paulo disse: Sive manducatis,sive bibitis,sive aliud quid facitis, omnia in gloriam Dei facite (1Cor 10,34). Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a maior glória de Deus. De modo que, se quisermos, podemos fazer sempre a vontade de Deus. Oh! Que felicidade, que felicidade, senhores Padres, fazer, sempre e em todas as coisas, a vontade de Deus! Não é isto que o Filho de Deus veio fazer na terra, como já vos dissemos? O Filho de Deus veio para evangelizar os pobres (cf. Lc 4,18); e nós, padres, não fomos enviados para fazer a mesma coisa? Sim, os missionários foram enviados para evangelizar os pobres. Que felicidade fazer na terra o mesmo que fez Nosso Senhor, que é ensinar o caminho do céu aos pobres!

            Os meios para isso consistem em ter o cuidado de direcionar a intenção, no começo de cada ação que fizermos, dizendo a Deus: “Meu Deus, é por vosso amor que vou fazer isto; é por vosso amor que vou deixar tal coisa para fazer essa outra”. Porque, vede, meus padres e irmãos, a boa intenção que formulamos no começo de nossas ações é como a forma. Verbi gratia, assim como para o batismo não basta molhar o menino, o que constitui apenas a matéria, para que seja batizado, mas é preciso, além disso, a intenção e as palavras, que são a forma; de outra maneira o menino ficaria sem ser batizado. Do mesmo modo, a boa intenção que formulamos no começo de nossas ações, que devem ser feitas por amor a ele [Deus], eleva-as [as ações] até o trono da majestade de Deus e as faz merecedoras da vida eterna. Peçamos a Deus que nos conceda essa graça de fazer, sempre em todas as coisas, sua santa e adorável vontade e de adquirirmos essa prática. Queira Deus conceder-nos essa graça!    

Inspiração bíblica: Sl 143 (142); Mt 12, 46-50.

Para refletir:

1)       Minhas escolhas pessoais, meu estilo de vida e os esforços que empreendo são orientados por uma opção fundamental por Deus e por um desejo sincero de fazer a sua vontade?
2)       Estou convencido de que o cumprimento da vontade de Deus plenifica minha existência, harmonizando meu agir e meu falar, meu falar e meu pensar, meu pensar e meu ser? 
3)       Permito que a minha consciência, os acontecimentos do cotidiano, a convivência com os outros, os “sinais dos tempos” inspirem o discernimento da vontade de Deus em relação a mim e à comunidade a que pertenço?




[1] SV XI, 313-316.

Lectio Vicentina: a Compaixão e a Misericórdia




Conferência de 06 de agosto de [1656][1]

                Quando vamos ver os pobres, devemos entrar em seus sentimentos para sofrer com eles e colocar-nos nas disposições daquele grande apóstolo que dizia: Omnibus omnia factus sum (1 Cor 9, 22), fiz-me tudo para todos; de forma que não recaia sobre nós a queixa que fez outrora Nosso Senhor por um profeta: Sustinui qui simul mecum contristaretur, et non fuit (Sl 68, 21), esperei para ver se alguém se compadecia de meus sofrimentos, e não encontrei ninguém. Para isso, é preciso empenhar-nos em enternecer nossos corações e torná-los sensíveis aos sofrimentos e  misérias do próximo, pedindo a Deus que nos dê o verdadeiro espírito de misericórdia, que é o espírito próprio de Deus; pois, como diz a Igreja, é próprio de Deus fazer misericórdia e comunicar-nos esse mesmo espírito. Peçamos, pois, a Deus, meus irmãos, que nos dê este espírito de compaixão e de misericórdia, que nos encha dele, que no-lo conserve, de forma que quem vir um missionário possa dizer: “Eis aqui um homem cheio de misericórdia”. Pensemos um pouco na necessidade que temos de misericórdia, nós que devemos exercitá-la para com os demais e levar a misericórdia a todos os lugares, sofrendo tudo pela misericórdia.

                Felizes nossos coirmãos que estão na Polônia e que sofreram tanto durante estas últimas guerras e durante a peste, e que ainda sofrem para exercitar a misericórdia corporal e espiritual e para aliviar, assistir e consolar os pobres! Felizes missionários, aos quais nem os canhões, nem o fogo, nem as armas, nem a peste puderam fazer sair de Varsóvia, onde os retinha a miséria dos outros; que perseveraram e ainda perseveram, corajosamente, em meio a tantos perigos e sofrimentos, pela misericórdia! Oh! Como são felizes por empregar tão bem este breve tempo de nossa vida na misericórdia! Sim, este momento, porque nossa vida não é mais do que um momento, que passa tão depressa e logo desaparece. Ah! Meus setenta e seis anos de vida não me parecem agora mais do que um sonho e um momento; e nada me resta deles, a não ser o pesar por haver empregado tão mal esses instantes. Pensemos no pesar que teremos, à hora de nossa morte, se não nos servirmos deste momento para fazer misericórdia.

                Sejamos, pois, misericordiosos, meus irmãos, e exercitemos a misericórdia para com todos, de forma que nunca encontremos um pobre sem consolá-lo, se o pudermos; nenhum homem ignorante, sem ensinar-lhe, em poucas palavras, as coisas nas quais ele precisa crer e o que ele precisa fazer para sua salvação. Oh Salvador, não permitais que abusemos de nossa vocação, nem tireis desta companhia o espírito de misericórdia. Que seria de nós, se nos retirásseis vossa misericórdia? Concedei-nos, pois, esse espírito, junto com o espírito de mansidão e de humildade. 

Inspiração bíblica: Sl 84(83); Lc 10, 25-37.

Para refletir:
Na parábola do Samaritano, Jesus nos propõe o caminho da misericórdia: ver, comover-se e agir. São Vicente nos convida a encarnar, em nossa ação missionária, essa mesma atitude dinâmica.
1)       Procuro VER a realidade dos pobres e, ainda mais, o rosto concreto de cada um deles, tal como se apresentam, ou limito-me a um olhar superficial, tendencioso e generalizante, incapaz de chegar às raízes dos dramas individuais e coletivos?
2)       Quando sou capaz de COMOVER-ME, deixo o sofrimento alheio “remexer as entranhas do meu coração”, sinto, de fato, a dor do outro que está caído à beira do caminho, ou simplesmente sou tomado por um sentimentalismo estéril?
3)       O olhar atento, que vai às raízes mais profundas, e o coração que se debruça sobre a miséria do outro me impelem a uma AÇÃO, entedida também como cuidado, para “fazer justiça ao oprimido”, tornando-o protagonista de sua própria história?  



[1] SV XI, 340-342.