segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Carta do Pe. Fábio Marinho ao Clero Diocesano de Uberlândia - MG


 

Ao Clero Diocesano de Uberlândia - por ocasião do Ano que se inicia.


Pe. Fábio Marinho

Diocese de Uberlândia

Escritor, palestrante e missionário digital


Eu confesso: quando olho para o ano que começa, não encontro facilidade em dizer “feliz ano novo” aos meus irmãos padres. 


Não por falta de fé, mas por excesso de realidade. 


Porque “feliz”, para nós, quase nunca é um adjetivo espontâneo; 


é um verbo difícil, conjugado na resistência.


Eu desejaria, antes de tudo, verdade. 


Verdade para reconhecer que muitas das nossas estruturas já não geram vida, apenas manutenção. 


Que repetimos ciclos não por fidelidade ao Evangelho, mas por medo do vazio que o novo provoca. 


Que a vaidade — essa forma refinada de miséria espiritual — muitas vezes se disfarça de zelo, de títulos, de cargos, de precedências litúrgicas e simbólicas. 


E quando a vaidade governa, o Espírito se retira em silêncio.


Teologicamente, eu diria que vivemos uma crise pascal não resolvida. 


Queremos Ressurreição sem Sexta-feira Santa, continuidade sem morte, estabilidade sem conversão. 


Mas o Deus que eu conheço — o Deus de Abraão, Isaac, Jacó, de Moisés, dos profetas e de Jesus — é especialista em fechar ciclos. 


Ele não reforma o Egito; Ele tira o povo de lá. 

ELE não melhora o templo corrupto; Ele o derruba. 

Ele não remenda o homem velho; Ele o crucifica para que outro nasça. 


Onde não se aceita morrer, nada verdadeiramente novo pode nascer.


Pastoralmente, eu desejaria misericórdia entre nós. 


Não a misericórdia retórica dos documentos, mas aquela que começa quando eu paro de disputar espaço, influência e reconhecimento. 


Quando eu entendo que meu irmão não é concorrente, nem ameaça, nem obstáculo, mas alguém tão  (ou mais) exausto quanto eu. 


Estamos todos cansados. 


Do nosso amado bispo, com seu grave problema de saúde que o impede de atravessar a praça para nos dar o privilégio em participar de uma homenagem honrosa a um membro do clero diocesano, aos seminaristas, que saem de suas casas e famílias para se entregarem totalmente ao cuidado da Diocese e se frustram dentro de um mês ao encontrar um ciclo vicioso que se repete há anos. 

Não há ninguém capaz de assumir nada de novo na formação desta diocese?


São sempre os mesmo 2 ou 3 de 18, 20, 30 anos atrás? 


É sério que há quem considere isso descente?


Do mais forte ao mais frágil, todos cansados!


E o cansaço não tratado vira cinismo, ironia, dureza e indiferença pastoral.


Psicanaliticamente, eu diria sem medo: estamos vivendo um looping institucional da alma. 


Tudo é despejado, nada é elaborado. 


Só repetido.


As peças do tabuleiro só mudam de lugar: vão e voltam. Com exclusividade.


Uma dança das cadeiras com cadeiras marcadas para cargos, funções, paróquias, etc. etc. etc.


Como se, no meio de dezenas de padres, apenas meia dúzia deles fossem os necessários e os eficazes.


Não há começo, meio e fim porque não há simbolização. 


Há quem está preso aos começos desde o nosso bispo anterior e, curiosamente, ainda não consegue deslumbrar, com maturidade e consciência pastoral, a necessidade da teologia da continuidade: os senhores precisam dos meios e dos fins! 

Até o Bispo, pela Sabedoria da Mãe Igreja, tem a hora certa de sair de cena.

E a vida pastoral continua.


Repetimos funções como quem repete sintomas. 


Estamos doentes de cargos.

Estamos doentes de reuniões e papéis.

Estamos doentes de não sermos nada e nos agarrarmos com unhas e dentes a papéis que levem nossos nomes e assinaturas.


As mesmas pessoas nos mesmos lugares, os mesmos discursos, as mesmas disputas, os mesmos grupos, as mesmas “costuras”, porque o sistema, como um sujeito adoecido, prefere a repetição do sofrimento conhecido ao RISCO DO DESCONHECIDO QUE PODERIA CURAR.


Onde não há luto, há repetição. 


Onde não se chora o que morreu, o passado governa o presente.


Então, o que desejar para este ano?


Logo eu: aposentado por invalidez, por um câncer que devora o interior dos meus ossos, silenciosamente, dia após dia.


Logo eu, que estou assistindo tudo de fora.


Eu não desejaria felicidade fácil. 


Desejaria coragem espiritual. 


Coragem para reconhecer que nem tudo o que é antigo é tradição; muita coisa é atraso e paralisia.


Muitas coisas (e pessoas) são apenas hábitos fossilizados.


Alguns fingem não perceber que já não servem para seus cargos; 

não são úteis nem necessários, mas não conseguem escrever uma carta coerente e caridosa, renunciando aos seus títulos arqueológicos e liberando o bispo do peso de arrastá-los.


Eu desejo coragem para admitir que algumas estruturas se tornaram estéreis, e que insistir nelas não é fidelidade, é negação. 


Covardia!


Coragem para permitir que Deus nos desinstale — porque toda verdadeira experiência de Deus desinstala.


Desejaria também liberdade interior. 


Liberdade dos títulos, das comparações, das pequenas vaidades clericais que nos fazem esquecer que fomos ordenados para servir, não para vencer lutas como gladiadores no centro de uma arena repleta de torcedores fanáticos por este ou aquele.


Senhores “Vigários de tantas coisas que já não servem” nem ao Bispo Diocesano e muito menos ao clero e ao povo a nós confiado.


Analisem a si mesmos e suas limitações: teriam os senhores se tornado pedras de tropeço?


Todos dizem as mesmas coisas pelos corredores da Cúria ou das sacristias. TODOS! 

E se disserem ser mentira posso citar nomes, ocasiões e assuntos tratados.


Quando o ministério vira identidade narcísica, ele deixa de ser sacramento e vira armadura.


E, acima de tudo, eu desejaria esperança pascal, aquela que não depende do sistema funcionar, mas da GRAÇA agir. 


A esperança que sabe que Deus sempre começa algo novo, mesmo quando tudo parece velho demais. 


Às vezes, o ano novo não nasce nas estruturas, mas em pequenos deslocamentos interiores: 

um padre que decide escutar mais, julgar menos; 

outro que aceita sair do centro do assunto ou da cidade; 

outro que cuida da própria saúde psíquica e espiritual sem culpa para evitar danos vergonhosos a si mesmo e à toda diocese.

Outro que reaprende a rezar sem pressa, deixando de lado a agenda pessoal para privilegiar a liturgia orante e acessível com o povo que já não entende nada do que se é falado dos púlpitos e muito do que é papagaiado nas celebrações.


Talvez não possamos desejar um “ano feliz”. 


Mas podemos desejar um ano verdadeiro. 


E, para mim, isso já seria profundamente cristão. 


Porque onde há verdade, mesmo dolorosa, Deus ainda está trabalhando. 


E se Deus ainda trabalha, então — mesmo no cansaço — ainda há salvação em curso.


…eu termino não com um slogan, mas com um pedido de um padre que está vivendo a experiência magnífica de viajar as dioceses de todo esse país e fora dele também para pregar retiros, dar formações teológicos e jornadas de catequese:


Eu peço que este ano nos seja dado como travessia, não como vitrine.


Que Deus nos poupe dos cargos e títulos que anestesiam a ponto de não percebermos que estamos atrapalhando a vida de uma diocese inteira, e nos conceda a lucidez que dói, mas salva. 


Salva a si mesmo. 


Salva ao presbitério cada vez mais vazio nas liturgias comuns.


Salva a vida pastoral cada dia mais desmotivada e em conflito com os leigos.


Salvo o seminário, que deve ser o lugar primordial do encontro, o lugar onde se cultiva a matéria-prima do nosso próprio Presbitério, onde serão formados o que deverão zelar por nossa velhice, ao menos confortável para além de nossas desgraças pessoais.


Salve a Cúria do afogamento burocrático e nada caridoso.


Salve o Bispo, tantas vezes sozinho e boicotado em tantos sonhos e projetos.


Que a gente tenha menos pressa de parecer forte e mais coragem de admitir fragilidade.


Porque só o frágil precisa de graça — e só quem precisa de graça se deixa alcançar por Deus.


Eu peço que a gente volte a sentir o que faz, a rezar o que vive, a chorar o que perdeu.


Que a instituição não nos roube a alma;

que a função não mate o desejo;

que o cargo não silencie a consciência.


Se for para desejar algo aos meus irmãos padres,

que seja isso:


não um ano confortável,

mas um ano honesto diante de Deus e digno aos olhos do presbitério que não se cansa de murmurar pelos corredores da cúria, ou de se manterem ocupados em fazer nada.


Um ano em que a gente pare de fingir que está tudo bem.


Porque NÃO ESTÁ!


Porque Deus não nos chama pelo que mostramos,

Ele nos encontra exatamente onde quebramos.


E se ainda doer, se ainda cansar, se ainda confundir,

eu acredito — profundamente,

que é sinal de que o Espírito ainda não desistiu de nós.


E enquanto Ele não desistir,

mesmo no esgotamento,

mesmo no silêncio,

mesmo na noite,

a Páscoa continuará sendo preparada.


Que venha 2026.


Que, sendo possível, seja novo e nos surpreenda para além do óbvio que ocupa os mesmos lugares há tantos anos.


Que venha o Ano e sejamos capazes o suficiente para torná-lo um ANO NOVO e FELIZ.


Pe. Fábio Marinho

Diocese de Uberlândia - MG

BRASIL

(Filósofo - Teólogo - Psicanalista)

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