quarta-feira, 24 de setembro de 2014

VOCAÇÃO: CHAMADO E RESPOSTA


“Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constitui,
para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça.”
(Jo 15, 16)

Mesmo não estando no mês vocacional, ou em alguma campanha do tipo, jamais devemos nos cansar de falar de vocação. Não sou nenhum teólogo ou estudioso graduado nesse tema, apenas um simples “propedêuta” da Congregação da Missão, que decidiu se colocar a serviço, arriscar, apostar. E que vem, por meio dessas modestas e humides palavras, tentar, ao menos de forma superficial, colocar no papel parte de seu simplório trajeto. Sei que os testemunhos além de ajudar, arrastam (cf 1Cor 11,1). Quero deixar claro que não tenho a mínima intenção de me colocar como exemplo de vivência perfeita, também nem teria como, pois, não tive e nem o sou, mas, como já disse sabiamente São João Crisóstomo: “Os que ardem de amor espiritual, nunca se cansam de o declarar”, e é esse o meu ideal.

Conformando-nos com definições cabais, nos autointitulamos preguiçoso, sendo assim, tentarei, de forma básica, dar pistas do que seja vocação. Um termo derivado do latim "vocare" que significa chamamento, ato de chamar. Tem também o significado de tendência, pendor ou disposição.

Seja para viver o matrimônio, constituindo assim uma família, ou para se consagrar inteiramente a Deus e aos irmãos, se doando por uma missão, o certo é que todos possuimos uma vocação e esta é sempre para uma missão, portanto tem uma finalidade, idependente da função ou do ministério exercido.  Escreveu o Papa Francisco: “A vocação é fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor de uns aos outros, que se faz serviço recíproco, no contexto de uma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si”.

Num lar, convento, seminário, paróquia ou em outra linha de atuação específica, a nossa vida deve refletir, inteiramente, o Deus Amor, Esperança e Salvação, em suas Três Divinas Pessoas, visando sempre o Reino dos Céus, para todos preparados. Em seus dois eixos, falamos de vocação fundamental quando nos referimos ao chamado de cada pessoa à vida, a ser cristão, filho de Deus, na Igreja. Já a vocação específica é a forma que cada pessoa realiza a sua vocação fundamental de forma leiga, religiosa ou sacerdotal. Nos fixaremos de forma mais intensa na vocação sacerdotal/religiosa.

Normalmente a vocação é inquietante, e gera certo “formigamento” no coração e na alma, às vezes paralisantes para muitos jovens. Conheci de perto, senti e vivi na pele, cada uma dessas experiências. Essa inquietação, na verdade, é um desejo de buscar respostas, ou melhor, de dar uma resposta, já que vocação é chamado; é aquela voz interior que fica ressoando em nossos ouvidos de forma incessante e insistente. E se alguém chama é necessário que outro responda.

Comparemos essas características com o início de uma paixão ardente, em que nos tornamos “enamorados da santidade, do brilho, do encanto e da formosura da alma” (São João Crisóstomo). Lembro-me claramente disso a partir do momento em que me considerei e me aceitei como vocacionado ao sacerdócio. Era uma verdadeira confusão, um emaranhado de sentimentos, uma saudade por algo ainda desconhecido. Não me cabia mais em nenhum lugar, nem mesmo na minha própria casa, no meu próprio quarto. Sentia-me submerso por uma expessa mistura de confiança desconfiante, medo seguido de coragem. Meio paradoxal, confuso, mas próprio do momento, do novo horizonte que surgia; quem passou e passa sabe bem como é.

Dei o primeiro e decisivo passo. Procurei dicernir tudo isso. Logo pensei: “Vou em quem entende do assunto”. Procurei a minha Arquidiocese, algumas Congregações e me submeti ao processo proposto. Mas sinceramente, até hoje não tenho todas as respostas, ou certeza plena de nada. Creio que nunca as terei, pois essa plenitude só cabe ao Deus Altíssimo. Quem sabe um dia, face a face com Ele... Mas lá no fundo, hoje, um pouco mais maduro, sinto que estou na direção certa, que devo continuar, persistir, e perseguir essa promessa (cf 2 Cor 1, 19-20, Sl 89,34, Js 23,14).

Infelizmente, muitos, se deixam dominar pela sensação de medo, permancem paralizados. Mas tenhamos a certeza que o tempo passa, porém o desejo segue e continuará até que tenhamos isso resolvido conosco mesmo. Tive a honra de conhecer, neste ano, um noviço, de aproximadamente 54 anos, que me contou parte de sua história e o quanto se arrepende por ter “perdido” tanto tempo, não tendo saído antes a procura desse entendimento. É a chamada Vocação Tardia, ou segundo o novo termo, Vocação Madura.

É necessário que busquemos, incansavelmente, entender e decifrar esse mistério com que nos deparamos vez ou outra. Ora adormecem, ora acordam e nos incendeiam. Clamemos sempre ao Senhor pela graça de um saudável discernimento. Se sentirmos o chamado, coragem, vamos a luta! Não esperemos proclamações sobrenaturais, como a decida dos céus à terra do Anjo Gabriel ou da Leigião do Santos Anjos para nos dizer qual a vontade de Deus para conosco. Deus se comunica de diversas formas, mais ordinariamente do que extraordinariamente. Bastar pararmos e observarmos o mundo à nossa volta, os simples acontecimentos. As ovelhas do Bom Pastor clamam por bons ministros e Cristo nos chama: “Vede, visitai e trabalhai na Minha vinha!”

Não nos deixemos contaminar pelos ruins testemunhos, pelos maus ministros, por aqueles que não deram um “sim” de forma sincera. Os tenhamos em vista para saber o que NÃO deveremos fazer caso persistamos na graça e sejamos, um dia, ordenados Sacerdotes. A “fumaça de satanás no templo de Deus” (Paulo VI) está aí, não tem como negá-la. Aprendamos a conviver sem nos tornarmos como um deles. Para isso nos protejamos com a armadura do cristão (cf Ef 6, 10-20). Sejamos diferentes. Não mais um! Procuremos viver em santidade, a exemplo dos santos, da Sempre Virgem Maria Santíssima, imitando o mestre Jesus. Ele deve ser nossa meta, nosso principal modelo.
               
Não queiramos ser ministros que preguem “achiologias”. Que façam aquilo que lhes convém. Devemos aceitar a proposta do Mestre como um todo. Com todas as exigências pedidas e reveladas. Sendo como Ele pobre, casto e obediente aos legítimos superiores por Ele constituídos. Nunca perder de vista os ensinamento da Santa Mãe Igreja é essencial, e isso exige de nós um comprometimento verdadeiro, ainda mais radical. Toda escolha exige de nós renúncias e toda decisão gera consequências. Arquemos com elas. “Por sua fé supera esse espetáculo desanimador, levanta seus olhos para o Rei dos Céus, enconraja a sí prórprio.” (São João Crisóstomo).

O nosso Deus é o único que não nos decepciona (cf Dt 7,9 / 32,4). É um Deus pessoal, presente, que escuta, caminha e luta com e por seu povo. Mas é uma luta diferente, em que a arma principal é sua Augusta Palavra. Cientes disso, abramo-nos profundamente a obra de Deus. Sejamos terreno fértil para uma semente de vida que salva almas. Vivamos e transmitamos o amor, a base de nossa Santa Religião.

Despeço-me, rogando que recebamos as bençãos celestiais de Deus pela graça e amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem sejam dadas glória, poder e honra, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, agora e para todo sempre. Amém!

Thiago Henrique Vieira de Oliveira.

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